sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O BASQUETE NAS MEMÓRIAS DE CORNÉLIO PROCÓPIO

Série O esporte congregando e formando cidadãos

Parte 2


Zenaide Aparecida Negrão
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

Quando depoimentos, fotografias, listas de atletas e documentos administrativos são colocados lado a lado, a história do basquete em Cornélio Procópio ganha outra dimensão. Mais do que uma sequência de partidas e resultados, ela revela uma rede de relações formada nas escolas, nos clubes, nas competições municipais e regionais e, sobretudo, na convivência entre gerações. O material preservado pelo Grupo de Pesquisa EDITEC permite acompanhar parte desse percurso e, ao mesmo tempo, perceber quantas histórias ainda podem ser recuperadas.
Nos depoimentos de João Luiz Gomes Canônico e Evaldo Knoll Filho, o Bolinha, recolhidos pelo projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, o basquete aparece como prática esportiva, espaço de sociabilidade e experiência formativa. Os relatos lembram disputas com equipes de cidades vizinhas, como Bandeirantes e Uraí, e registram conquistas procopenses em 1960 e 1965. Também recuperam nomes que marcaram diferentes momentos das quadras locais: João Luiz Gomes Canônico, Evaldo Knoll Filho (Bolinha), Nivaldo Mariucci (Dinho), João Bassanezzi (Biquinha), Nei Mariucci (Neizão), Antonio Silveira Brasil Filho (Pinguim), Sérgio Poli, Gilberto Silos (Beto), Orlando Canonico (Orlandinho), Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará) e Geraldo Rodrigues Froes.

Figura 1 — Equipe de basquete do Primeiro Colegial do Colégio Estadual Castro Alves, em 1962
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Da escola à cidade: aprender, jogar e formar outros jogadores

A presença do Colégio Estadual Castro Alves é recorrente nessa memória. Sérgio Poli e Mauro João Gonçalves são lembrados como professores e técnicos próximos dos estudantes, e as fotografias do acervo ajudam a materializar aquilo que os depoimentos narram: a escola era um dos lugares em que os jovens se aproximavam do esporte, treinavam e passavam a integrar equipes que representavam a cidade em outras competições.
João Luiz foi uma figura central nesse processo. Em seu depoimento, recorda-se a conquista do título brasileiro de lance livre, em 1960, em Niterói, no Rio de Janeiro. Sua trajetória, porém, não se resume ao desempenho como atleta. Ainda jovem, ensinava fundamentos do basquete e acolhia meninos de diferentes condições sociais nas quadras. Mais tarde, a formação em Educação Física, na Universidade Estadual de Londrina, deu continuidade a essa aproximação entre esporte e ensino.

Figura 2 — Equipe feminina vice-campeã paranaense em Assis
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

O basquete feminino também está no centro dessa história

As fotografias e os registros preservados no acervo evidenciam a presença feminina no basquete procopense. Imagens de equipes, de Jogos Colegiais, de outras competições e de desfiles mostram que as mulheres não ocuparam um lugar lateral na vida esportiva da cidade. Elas aparecem uniformizadas, em quadra, em viagens e também nas ruas, integrando a visibilidade pública conquistada pelo esporte.

Figura 3 — Atletas em desfile pelas ruas de Cornélio Procópio; à frente, jogadoras carregam bolas de basquete
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Um dos registros preservados reúne jogadoras identificadas como Rosângela Pimenta, Ione Caznok Lima, Rossana Graciano de Resende, Cristina Minotto, Regina Nóbrega, Neusa Tocunduva Tomasi, Ana Sílvia de Rosis, Elizabeth Ronchi, Milne Gilson Duarte, Vânia D’Andréa, Candinha Geraix e Sueli Pinheiro. Ao final da anotação, aparecem ainda os nomes “Jamila Haddad — Loló Reghin”, sem que o registro, isoladamente, permita estabelecer com segurança a relação entre eles. Essa pequena incerteza mostra justamente a importância de cruzar fotografias, depoimentos e outras legendas do próprio acervo antes de transformar uma hipótese de identificação em informação factual.
Um segundo registro, referente aos Jogos Colegiais, fornece uma chave importante para esse cruzamento. A legenda identifica o treinador Sérgio Poli e registra Loló como Rosangela Reghin, além de mencionar Raquel Carvalho, Suely Bonfim, Sandra Bonesso Montanes, Rosane Campos, Íris, Marina Lucchesi, Lilian Madi, Yone Paiva e Nilce Silva. A anotação destaca ainda “Sandrinha (número 6)” e acrescenta que ela “foi embora muito cedo”. Ao lado dos demais documentos, a fotografia amplia o conjunto de nomes ligados ao basquete feminino e reforça a presença das competições escolares na formação esportiva de jovens procopenses.

Figura 4 — Equipe feminina de basquete nos Jogos Colegiais, com o treinador Sérgio Poli 
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Figura 5 — Grupo de meninas ligado à formação do basquete feminino
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

A documentação municipal dos XI Jogos Abertos de Cornélio Procópio, realizados em fevereiro de 1977, acrescenta uma evidência importante. O evento reuniu diversas modalidades e utilizou diferentes espaços da cidade, como o Quinzão, o Country Club, o Centro Cultural e o campo do Comercial. Nos registros do basquete, a classificação final apontou o GRECI Iguaçu em primeiro lugar e o Sementes Canadá em segundo no masculino; no feminino, o Sementes Canadá ficou em primeiro e o Country Club em segundo. Os boletins também registram, em 13 de fevereiro, a vitória do Sementes Canadá sobre o Iguaçu por 57 a 9 no feminino e, no masculino, a vitória do Iguaçu sobre o Sementes Canadá por 64 a 61. Mais do que placares, esses documentos mostram a existência de equipes organizadas e de uma estrutura municipal de competição na qual homens e mulheres participavam do calendário esportivo local.

Figura 6 — Equipe feminina de basquete em registro histórico 
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

O basquete no calendário esportivo de 1992

Uma edição do Jornal Líder, Ano III, nº 144, publicada entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, registra a atuação da Autarquia Municipal de Esportes e Recreação (AMESP) ao longo de 1992. No balanço divulgado pelo jornal, a escola de basquete mantida pela autarquia aparece com 360 crianças matriculadas. O dado mostra que a modalidade integrava uma política contínua de iniciação esportiva: as atividades eram oferecidas diariamente e conviviam com escolinhas de judô, vôlei, futsal, futebol e outras práticas esportivas.
O calendário anual apresentado no mesmo relatório permite acompanhar a presença do basquete ao longo de vários meses. Em março, aparece o início das atividades das escolinhas desportivas, entre elas a de basquete. Em abril, o jornal registra amistosos de basquete masculino entre Cornélio Procópio e Assis e de basquete feminino entre Cornélio Procópio e Presidente Prudente. Em maio, constam o Campeonato Sênior de Basquete Masculino e a participação da seleção de Cornélio Procópio no Campeonato Paranaense de Basquete Feminino Adulto; em junho, aparecem a continuidade do campeonato paranaense feminino e do campeonato sênior. A sequência revela uma estrutura esportiva que articulava formação de crianças, equipes adultas, atletas veteranos e intercâmbio competitivo com outras cidades.
Esses registros de 1992 ajudam a ligar as memórias das quadras escolares e das equipes das décadas anteriores a uma etapa de maior institucionalização do esporte no município. O basquete continuava presente não apenas como lembrança de antigos campeonatos, mas como prática organizada, com escolinhas, seleções, torneios e participação em competições estaduais.

Outras gerações entram em quadra

O material reunido pelo EDITEC também registra uma geração mais nova de jogadores. Entre os nomes anotados estão Joni Silva Correia, Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará), Antonio Villas Boas Filho (Tonico), Evaldo Ferrari Chagas (Tustão), Gino Azzolini Neto (Gininho) e Pilade Ducci Sobrinho (Polaco). Em uma das fotografias, a identificação manuscrita ou digitada no acervo menciona ainda Vilela, Nelson Zamarian, Bolinha, Pinguim, Toniquinho (Antonio Villas Boas), Gino, Ducci e Eto (Edson Wagner Azzolini), mantendo algumas dúvidas de identificação. Em vez de apagar essas incertezas, preservá-las é metodologicamente importante: elas indicam os pontos em que a memória coletiva ainda pode ser completada por outros moradores e ex-atletas.

Figura 7 — Outra geração do basquete procopense
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Uma memória que ultrapassa os resultados

A trajetória de Bolinha ajuda a perceber esse caráter formativo. Na adolescência, ele sonhava jogar futebol, mas acreditava ter poucas chances: “era gordinho, cabelo vermelho, pintadinho”. Ao observar João Luiz ensinando outros meninos, encontrou no basquete uma possibilidade. Foi o amigo quem o levou para a quadra e acreditou nele; aos 15 anos, Bolinha já havia se tornado campeão. Ao recordar os estudos, mencionou também a frase de sua mãe, dona Ida, de que o “tal do basquete atrapalhou seus estudos”. A lembrança, ao mesmo tempo afetuosa e bem-humorada, mostra a intensidade com que o esporte atravessava sua juventude.
Essa participação ganhou outras formas ao longo do tempo. Como diretor esportivo do grêmio do Colégio Estadual Castro Alves, Bolinha participou de uma solenidade cívica de posse, vestido de terno e gravata. Mais tarde, foi presidente da Associação Procopense de Basquete e participou da fundação do Ginásio de Esportes Quinze de Fevereiro, o Quinzão. A quadra, portanto, não foi apenas lugar de prática: tornou-se também espaço de organização, liderança e responsabilidade coletiva.

Figura 8 — “Turma do basquete”, em registro do acervo associado a nomes como Lilian Madi, Arlete e Eurico
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC

Em 2005, essa dimensão afetiva ganhou uma expressão marcante. Veteranos liderados por João Francisco Vilela organizaram um jantar em homenagem a João Luiz. Durante o encontro, antigos aprendizes foram chamados ao palco para uma fotografia ao lado do professor e os presentes o aplaudiram de pé. Na lembrança de Bolinha, foi um momento de grande emoção. Décadas depois dos primeiros treinos, permanecia o reconhecimento por alguém cuja atuação ajudara a aproximar jovens do esporte e a criar vínculos que sobreviveram às competições.
Reunidos, os depoimentos, as fotografias, os boletins dos Jogos Abertos e as páginas do Jornal Líder deslocam o olhar de uma história feita apenas de campeões para uma história feita de pessoas e instituições. Há títulos, troféus e placares, mas há também professores, estudantes, meninas iniciando nos treinos, equipes femininas, clubes, desfiles, viagens, associações, escolinhas e políticas públicas de incentivo ao esporte. Há nomes conhecidos e outros ainda à espera de identificação — todos compondo uma memória coletiva que ultrapassa a quadra.
Preservar essas imagens e relatos é também reconhecer que o basquete ajudou a formar gerações. Nas quadras escolares ou nos campeonatos municipais, entre o aprendizado de um fundamento e a organização de uma equipe, o esporte construiu pertencimentos. Ao recuperar essas trajetórias, o EDITEC não apenas guarda resultados do passado: mantém vivas experiências que continuam a compor a memória coletiva da cidade.

REFERÊNCIAS

CANÔNICO, João Luiz. João Luiz Canônico: depoimento [set. 2014]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Amanda Martins Reis e Inês Cardin Bressan. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

KNOLL FILHO, Evaldo. Evaldo Knoll Filho (Bolinha): depoimento [set. 2014]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Amanda Martins Reis e Inês Cardin Bressan. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

AUTARQUIA MUNICIPAL DE ESPORTES E TURISMO DE CORNÉLIO PROCÓPIO. XI Jogos Abertos de Cornélio Procópio: convite, programação, boletins de resultados e classificação por modalidade. Cornélio Procópio, 1977. Acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

JORNAL LÍDER. “Esporte movimentado” e “O relatório de 92”. Cornélio Procópio, ano III, n. 144, dez. 1992/jan. 1993. Acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

GRUPO DE PESQUISA EDITEC. Acervo fotográfico e registros de identificação do basquete procopense. Cornélio Procópio, s.d.

GRUPO DE PESQUISA EDITEC. Registro fotográfico de equipe feminina de basquete nos Jogos Colegiais, com identificação de treinador e atletas. Cornélio Procópio, s.d.

Versão revista e ampliada da parte dedicada ao futebol no artigo “O esporte congregando e formando cidadãos”, de Zenaide Aparecida Negrão e Marilu Martens Oliveira, publicado no blog EDITEC em 4 de maio de 2016.


























O FUTEBOL NAS MEMÓRIAS DE CORNÉLIO PROCÓPIO

Série O esporte congregando e formando cidadãos

Parte 1


Zenaide Aparecida Negrão
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

As investigações do projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, do Grupo de Pesquisa EDITEC, têm revelado histórias que ajudam a compreender a vida em Cornélio Procópio. Entre elas, o esporte ocupa um lugar especial. Nas lembranças de quem viveu as décadas de 1950, 1960 e 1970, voltam os nomes dos atletas, as rivalidades entre os clubes e a alegria de uma cidade que se reconhecia nas conquistas de seus jogadores.
O futebol movimentava os meios de comunicação, o comércio e as escolas. Esporte Clube Comercial, Nove de Julho e Azul Clube despertavam paixões, e as conversas sobre os times continuavam muito depois das partidas. O Nick Bar era um dos pontos de encontro dos rapazes, que defendiam suas equipes em discussões acaloradas. O bar Clipper e a Vitamina Real também reuniam amigos para jogar conversa fora. Todos eram técnicos em potencial!

Figura 1. Estádio José de Andrade Vieira, o campo do Comercial
Fonte: Acervo Futebol do Interior Paranaense. Reprodução: Facebook.

Segundo o professor Antonio Pereira do Bonfim (2014), a cidade contou com uma equipe notável de atletas, entre eles Garoto, Vitão, Pedrinho, Dirceu Funari, Bocage, Arnoldo, Nelsinho e Silvinho. Alguns chegaram a despertar o interesse do Santos Futebol Clube, mas tinham outros projetos de vida e não seguiram para o time paulista. Essas escolhas também fazem parte da história de jogadores que permaneceram na memória dos procopenses.
Entre as conquistas mais celebradas está o Campeonato Paranaense de 1961, vencido pelo Esporte Clube Comercial, conhecido como Leão do Norte. A competição teve sua fase decisiva disputada em 1962, após uma disputa judicial envolvendo Operário Ferroviário e Coritiba. O triangular reuniu Comercial, Esportiva de Jacarezinho e Operário, representantes das diferentes regiões do estado (Mossini, 2003).
Na campanha pelo título, o Comercial venceu o Operário por 2 a 1 em Cornélio Procópio. A conquista tornou-se motivo de orgulho para a cidade. Sob o comando do técnico Raimundão, Raimundo dos Santos, os campeões desceram festivamente a avenida XV de Novembro, recebendo a homenagem dos moradores. Por um momento, a alegria da vitória reuniu até aqueles que, em outras partidas, estavam em lados opostos da torcida.

Figura 2. Faixa de campeão paranaense de 1961 do Esporte Clube Comercial
Fonte: Acervo Futebol do Interior Paranaense. Reprodução: Facebook.

A trajetória do Comercial foi construída em meio a dificuldades. O clube tinha poucos recursos e um elenco reduzido. Muitos jogadores conciliavam treinos e partidas com outras ocupações, entre elas o trabalho nos bancos. O antigo Estádio José de Andrade Vieira, conhecido como campo do Comercial, ficava no alto da avenida XV de Novembro, na esquina com a avenida Getúlio Vargas, e foi palco de momentos marcantes dessa história.
O título estadual levou o Comercial à Taça Brasil de 1962, na qual representou o Paraná e enfrentou o Metropol, de Santa Catarina (Mossini, 2003). As viagens exigiam disposição: os jogadores percorriam longas distâncias em uma jardineira, em condições muito diferentes das oferecidas às equipes profissionais de hoje. Nas lembranças dessa trajetória, a ida a Santa Catarina ficou marcada pelas estradas de terra, pela travessia de balsa, pelo cansaço e pelas refeições improvisadas durante o caminho.

Figura 3. Equipe do Comercial com as faixas do título paranaense de 1961
Em pé: o treinador Raimundão (Raimundo dos Santos), Pinduca, Vitão, Dirceu Funari, Odino, Mourão, Pedrinho, Beline, Gibi, Areo e Bocage. Agachados: Vitinho, Valdir, Baltasar, Torquato, Rubinho, Nelsinho e Silvinho.
Fonte: Acervo de Jair Siqueira; fotografia cedida por Valdir Lisboa, Santos (SP). 
Reprodução: Facebook.

As fotografias dos times, as faixas de campeão e os nomes ainda lembrados pelos torcedores guardam uma parte da vida da cidade. Ao reunir esses registros e ouvir seus protagonistas, o EDITEC contribui para que as novas gerações conheçam os atletas que mobilizaram Cornélio Procópio. Recordar suas trajetórias é também reconhecer o valor dos encontros e das amizades que o futebol tornou possíveis.
Na próxima publicação da série, as memórias do basquete procopense darão continuidade a essa história, com destaque para a formação de atletas e os vínculos construídos nas quadras.

REFERÊNCIAS

BONFIM, Antonio Pereira do. Antonio Pereira do Bonfim: depoimento [set. 2014]. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

MOSSINI, Thiago. Comercial, um time imbatível nos anos 60. Folha de Londrina, Londrina, 20 set. 2003. Disponível em: Comercial, um time imbatível nos anos 60. Acesso em: 25 set. 2026.

SOUZA, Luiz. Acervo Futebol do Interior Paranaense. Fotografias. Facebook, 23 dez. 2022. Disponível em: Publicação do acervo.

Versão revista e ampliada da parte dedicada ao futebol no artigo “O esporte congregando e formando cidadãos”, de Zenaide Aparecida Negrão e Marilu Martens Oliveira, publicado no blog EDITEC em 4 de maio de 2016.





sexta-feira, 18 de setembro de 2026

NELSON LUIZ DA ROCHA LOURES: UM APANHADOR DE LEMBRANÇAS

Zenaide Aparecida Negrão
Luiz Adriano Morganti
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

Tempos inesquecíveis foram aqueles vividos pela família de dona Laura e do dr. Gentil da Rocha Loures, que chegaram a Cornélio Procópio em 1937, vindos de Curitiba. É o que contou o filho Nelson Luiz da Rocha Loures, nascido em 1945, um legítimo pé-vermelho, dono de prodigiosa memória.
Segundo Nelson, seu pai foi o primeiro dentista diplomado a atuar na cidade. Entre as recordações da família, destacou também a atuação dos pais junto à Legião Brasileira de Assistência (LBA), no apoio às famílias dos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Figura 1. Nelson Luiz da Rocha Loures durante a entrevista
Fonte: registro realizado no dia da entrevista.

Nelson estudou na Escola Rui Barbosa, no Grupo Escolar Professor Lourenço Filho e, depois, no Ginásio Estadual Castro Alves, posteriormente denominado Colégio Estadual Castro Alves. Dessas instituições, guardou excelentes recordações: colegas queridos, professores competentes, muita diversão, mas também muito estudo.
Marcaram sua memória afetiva as professoras do primário Yolanda G. Corrêa, Aparecida C. Palácios, dona Gabriela e dona Alba Barros. Mais tarde, na adolescência, vieram outras experiências e personagens inesquecíveis.
Uma das histórias envolveu o professor Zequita, José Albano de Oliveira, que lecionava Ciências e Física e ensinou a turma a fazer pólvora para um projeto de foguete. Com material comprado na Casa Serrador pelo colega João Rocha, o experimento foi realizado na aula da professora Lia Marisa de Lacerda. A experiência terminou mal: a professora começou a chorar, e a turma foi suspensa das aulas por três dias.
Nelson também recordou o professor Naufal, de Inglês, que era surdo. Segundo seu relato, os alunos respondiam às perguntas em voz baixa para provocá-lo. Lembrou ainda o professor Madi e suas aulas de fonética inglesa.
Os professores Luiz Trajano da Silva e Expedito Pegoraro foram lembrados por desvendarem os meandros da Matemática. Já o professor Ananias Antônio Martins costumava comentar sobre seu irmão, ator de filmes de bangue-bangue. Nelson contou que os estudantes recorriam a temas como Deus e Cristo nas redações, na expectativa de obter boas notas, por conhecerem o interesse do professor pela religião.
Dona Clementina, da cantina do Castro Alves, também foi lembrada com carinho. Seus quitutes, especialmente a inigualável coxinha de carne com massa de mandioca, faziam do intervalo entre as aulas um momento aguardado com grande expectativa.

Figura 2. Nelson, o sexto da esquerda para a direita, com colegas do Castro Alves na Praça Brasil
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Bem-humorado, Rocha Loures contou que morou por muitos anos no cruzamento das ruas Quintino Bocaiúva e Ceará, no chamado Bairro do Chulé. Assim eram conhecidos os arredores da Serraria dos Mariucci, por causa do cheiro forte do pó de serra.
Ao recordar a vida na cidade, mencionou o filme A caldeira do diabo (Peyton Place), que fazia sucesso na época. Para ele, a história parecia ter sido inspirada em Cornélio Procópio: uma cidade pequena, conservadora e rígida, onde todos se conheciam e havia bastante falatório.
A cidadezinha foi crescendo, e o barro, aos poucos, deu lugar ao asfalto. Nelson lembrou que, por volta de 1952, havia uma linha circular de ônibus municipal. Contou também que, posteriormente, uma forte geada provocou grandes prejuízos à economia da região. As freiras do Coleginho, o Colégio Nossa Senhora do Rosário, compraram o referido ônibus, conhecido como jardineira, para transportar os alunos.
Os colegas da escola eram também parceiros no esporte amador, um capítulo à parte em suas recordações. Nelson destacou o incentivo dos professores de Educação Física do Castro Alves: Mauro João Gonçalves, José Sérgio Poli e João Luiz Canonico.

Cornélio, centro esportivo destacado

Figura 3. Basquete na quadra do Castro Alves, na Rua Portugal: Jarbas Poli, Nelson, Dinon Villas Boas, Dantonzinho, Nenê (Edivaldo Gomes), Titinho (João de Toledo Tito) e Waltão (Walton Luiz Del Tedesco)
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Como muitos jovens de sua época, Nelson gostava bastante de esporte. No Country Club, fazia parte de um grupo de nadadores com Celso Poli, Darlan, Zé Marcolini, conhecido como Bolinha, Dimas e Sérgio Concato. Recordou que eram treinados por um professor japonês conhecido como Mac ou Maque.
Entre as nadadoras, destacou as irmãs Regina e Tereza Hatsushica, que se sobressaíam nas competições. Também mencionou o time de beisebol do Clube Kaikan.
Mas o foco da meninada estava no basquete, muito incentivado pelos diretores da Associação Atlética e Recreativa de Cornélio Procópio (AARCP), conhecida como Veterana. Nelson contou que, em alusão ao nome, o distintivo nas camisetas dos atletas trazia o desenho de uma mulher idosa.
Entre as conquistas relembradas, estavam os títulos do basquete procopense nos Jogos Abertos do Paraná, em 1960 e 1965.
Ao falar dos atletas da cidade, citou João Luiz e Orlandinho Canonico, Evaldo Knoll Filho (Bolinha), Gilberto Silos (Beto), Nivaldo Mariucci (Dinho), Edilberto Paiva, João Bassanezzi (Biquinha), Nei Mariucci (Neizão), Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará), Danton Novaes Filho (Dantonzinho), Jarbas Poli, Mário Emílio Gonçalves, Rubens Tito (Binho) e Antonio Brasil Filho (Pinguim).

Figura 4. Jogadores de basquete: Beto, João Luiz, Edilberto, Mário Emílio e Dinho
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Figura 5. Equipe de basquete de Cornélio Procópio, com Bassanezzi, Edilberto, Neizão, Pinguim, Sérgio Gandra, Nenê, Binho Tito e João Luiz
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

As fotografias compartilhadas por Nelson também registram a família Rocha Loures. Junto às lembranças da escola, dos amigos e do esporte, esses registros compõem uma história de vínculos e experiências que se entrelaça à memória de Cornélio Procópio.

Figura 6. Família Rocha Loures: Nelson, de camisa branca, e sua esposa, Cida Schiavinatto Rocha Loures, com os braços sobre seus ombros
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

REFERÊNCIAS

ROCHA LOURES, Nelson Luiz da. Nelson Luiz da Rocha Loures: depoimento [nov. 2017]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Luiz Adriano Morganti e Marilu Martens Oliveira. Cornélio Procópio – PR: UTFPR-CP, 2017. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”.


 



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SALVE, SALVE ADELZON ALVES, “O AMIGO DA MADRUGADA”!

Marilu Martens Oliveira
Sônia Maria Rodrigues
Luiz Adriano Morganti
Bárbara Rocha Feltrin
Denise da Silva de Oliveira

Em 4 de janeiro de 2014, Adelzon Alves concedeu ao Grupo de Pesquisa EDITEC uma entrevista de aproximadamente cinco horas, na qual revisitou suas raízes procopenses e sua trajetória no rádio e na produção musical. Suas lembranças, reunidas a fontes bibliográficas e jornalísticas, dão forma a este registro sobre “o amigo da madrugada”.

Raízes procopenses

Antônio Damasceno Alves veio de Minas Gerais com sua família e estabeleceu-se em Congonhas, distrito de Cornélio Procópio, no norte do Paraná. Foi ali, na zona rural, por onde passa o córrego do Lajeado, que nasceu seu filho Adelzon Alves, em 5 de setembro de 1939. O menino se tornaria jornalista, radialista e produtor musical, construindo uma trajetória reconhecida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que lhe concedeu o título de Cidadão Carioca em 2000.

Figura 1. Adelzon Alves
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Seu Damasceno, sisudo, mas de coração enorme, foi vereador e batalhou pela fundação do Lar São Vicente de Paula. Também foi um grande incentivador da Banda Musical Santa Cecília de Cornélio Procópio. Gostava de música e valorizava a cultura popular, assim como seu irmão Quincas, que participava de grupos de Folia de Reis.

Figura 2. Antônio Damasceno Alves com a esposa e os filhos
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
 
Figura 3. Adelzon Alves e sua irmã Adélia, eterna Miss Cornélio
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Foi nesse ambiente musical que Adelzon cresceu. Em Congonhas, cursou o antigo primário e, posteriormente, estudou no Colégio Estadual Castro Alves, em Cornélio Procópio, do qual guardava grandes lembranças. O diretor, na época, era o professor Ângelo Mazarotto. Durante a entrevista, o radialista destacou a contribuição dos professores José Gomes e Átila Silveira Brasil, de Geografia, e Gilda Poli, de História, entre outros mestres da instituição, para sua formação política e social.
Sua vida também foi marcada pela poesia de Patativa do Assaré, Cora Coralina e Jayme Caetano Braun, especialmente pelo poema gauchesco “Cemitério de campanha”, deste último.
Às influências familiares e escolares somaram-se as de colegas de profissão. Entre eles, Adelzon destacou Waurides Brevilheri, que posteriormente se tornou proprietário da Rádio Cornélio Procópio, e Marcos Alberto, que lhe proporcionava verdadeiras aulas de percepção musical. Ao comentar músicas, letras e arranjos, falar sobre autores e intérpretes e orientar a programação, Marcos contribuiu para a formação do jovem radialista.
Foi esse mestre, colega e amigo que lhe falou sobre um músico que se apresentava em Santo Antônio da Platina, no Paraná, e que depois morou em Cornélio Procópio, na zona de meretrício: Booker Pittman.

De Cornélio Procópio ao rádio carioca

Ao recordar sua atuação como homem da comunicação e como “pé-vermelho”, Adelzon contou que iniciou sua trajetória profissional na ZYR5, Rádio Cornélio Procópio. Seu programa de auditório era um sucesso, e o trabalho na emissora foi uma verdadeira escola: naquele tempo, fazia-se de tudo em rádio.
Na entrevista de 2014, observou que as emissoras passaram a dedicar menos espaço à música, concentrando a programação em notícias, comerciais e entrevistas.
Após concluir o curso científico no Colégio Estadual Castro Alves, Adelzon mudou-se para Curitiba, em 1962, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Da capital paranaense, guardava lembranças das rádios Guairacá, Independência e Cruzeiro do Sul, além da presença marcante de Euclides Cardoso, radialista que o estimulou a valorizar a música popular brasileira.
De Curitiba para o Rio de Janeiro foi a próxima estação do trem de sua vida. Na Cidade Maravilhosa, onde se estabeleceu em 1964, Adelzon teve a oportunidade de conviver com a alma boêmia carioca, experiência que recordou com muita verve durante a entrevista.

Figura 4. Adelzon Alves, jornalista, radialista e produtor musical
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Trabalhou na Rádio Globo de 1964 a 1990. Em 1966, passou a apresentar seu próprio programa, “Adelzon Alves, o amigo da madrugada”, batizado assim pelo amigo e chefe Mário Luiz. A atração começava à meia-noite, com a saudação:

“Saravá, para quem é de saravá. Bênção pra quem é de bênção. Boa noite pra quem é de boa noite. Bom dia pra quem é de bom dia”.

No programa, o locutor entrevistava artistas, contava histórias e divulgava compositores de samba, especialmente aqueles ligados aos morros cariocas. Entre eles estavam Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão e Djalma Sabiá, além de Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
Também abriu espaço e contribuiu para a projeção de artistas como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira, da Portela, Marisa Gata Mansa, Djavan, Alcione e Clementina de Jesus. Foi ainda produtor e companheiro de Clara Nunes, cantora nascida em 1942 e falecida em 1983, com quem começou a trabalhar em 1970.

Uma voz em defesa da música brasileira

Figura 5. Clara Nunes e Adelzon Alves
Fonte: reprodução de fotografia publicada em História de Alagoas, no artigo de Ticianeli (2022).

Sob a orientação de Adelzon, Clara diversificou seu repertório, incluindo, além de sambas, gêneros como xotes, frevos, cirandas e forrós. Essa parceria contribuiu para dar novos rumos à carreira da cantora e consolidar seu reconhecimento na música popular brasileira.
Ao analisar esse trabalho, Brügger (2008) relaciona o pensamento de Adelzon aos ideais socialistas de valorização da cultura popular brasileira, de superação das desigualdades da sociedade capitalista e de resistência à dominação estrangeira, especialmente à influência norte-americana.
Homem culto e engajado, autodidata, espiritualista e conhecedor de história, Adelzon defendeu a liberdade e a diversidade cultural. Com generosidade e criatividade, abriu espaço tanto para artistas reconhecidos quanto para talentos ainda pouco conhecidos, aproximando cantores, compositores e manifestações musicais de diferentes origens.
Essa atuação também marcou seu trabalho na Rádio MEC. A partir de 1982, passou a apresentar “Fole e viola”, programa dedicado à música regional brasileira, que recebia artistas de diferentes partes do país.

Figura 6. Adelzon Alves com Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o Gonzagão
Fonte: acervo Ney Vital, reproduzido pela Rede GN (2020)

Na mesma emissora, apresentou “MPB de Raiz”, valorizando compositores e cantores ligados às raízes culturais brasileiras e oferecendo oportunidades a quem iniciava sua trajetória na música.
Ao longo de sua atuação no rádio, contribuiu para divulgar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Alcione, Bezerra da Silva, Elaine Machado, Fundo de Quintal, Djavan, Mauro Diniz e Jovelina Pérola Negra.
Na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, deu continuidade a esse trabalho de divulgação da cultura musical, apresentando artistas como Mariuza, Osmar do Breque, Ronaldo Pudim, Seu Adriano e Lídia Gaúcha.

Reconhecimento e homenagem

Ao completar 80 anos, em 2019, Adelzon foi homenageado com um show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, com a participação de Alcione, Rildo Hora, Neguinho da Beija-Flor, Yeda Maranhão e outros artistas, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Naquele ano, também foi o primeiro homenageado do projeto Trem das Seis, realizado na plataforma do trem que leva ao Corcovado. O tributo celebrou sua trajetória e sua contribuição à cultura brasileira (Sampaio, 2019).
É com orgulho, portanto, que o Grupo de Pesquisa EDITEC registra a história de Adelzon Alves, um cidadão engajado, um profissional respeitado e um procopense de nascimento e de coração. A homenagem encontra eco nos versos de Monarco e Chico Santana:

“Eu passo momentos felizes com minha amada
Ouvindo o homem da madrugada
É ele que protege o sambista
Contra as injustiças sociais
Desejamos ao radialista
Que Deus lhe dê saúde, amor e paz”.

Figura 7. Adelzon Alves com Marilu Martens Oliveira, Sônia Maria Rodrigues, Luiz Adriano Morganti e Bárbara Rocha Feltrin durante a entrevista concedida ao EDITEC, em 4 de janeiro de 2014
Fonte: registro fotográfico do Grupo de Pesquisa EDITEC.

REFERÊNCIAS

ALVES, Adelzon. Adelzon Alves: depoimento [jan. 2014]. Entrevistadores: Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Sônia Maria Rodrigues e Bárbara Rocha Feltrin. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista realizada na residência de Marilu Martens Oliveira e concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”.

BRÜGGER, Sílvia. Canto mestiço. Revista de História, 2 set. 2008. Disponível em: https://web.archive.org/web/20130604102135/http:/www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/canto-mestico. Acesso em: 20 mar. 2021.

DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Adelzon Alves. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/personalidade/adelzon-alves/. Acesso em: 12 set. 2026.

REDE GN. Aos 80 anos radialista Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada é demitido da Rádio Nacional. 25 fev. 2020. https://www.redegn.com.br/?sessao=noticia&cod_noticia=127934. Acesso em: 12 set. 2026.

SAMPAIO, Fabiana. Ao som de Corcovado, de Tom Jobim, Adelzon Alves abre o projeto Trem das Seis. Radioagência Nacional, 5 dez. 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2019-12/ao-som-de-corcovado-de-tom-jobim-adelzon-alves-abre-o. Acesso em: 25 jan. 2022.

TICIANELI, Edberto. Meia-noite na Rádio Globo: quando o acaso abriu as portas para Djavan. História de Alagoas, 17 out. 2022. Disponível em: https://www.historiadealagoas.com.br/meia-noite-na-radio-globo-quando-o-acaso-abriu-as-portas-para-djavan. Acesso em: 12 set. 2026.







sábado, 5 de setembro de 2026

CORNÉLIO PROCÓPIO NAS LEMBRANÇAS DE SÍLVIO CUNHA: MÚSICO, POETA, POLÍTICO, EMPRESÁRIO, AGITADOR CULTURAL, QUE BRINDA À VIDA

Marilu Martens Oliveira
Luciana Carneiro Hernandes
Sônia Maria Rodrigues
Bárbara Feltrin
Denise da Silva de Oliveira

A história de Cornélio Procópio e inúmeros acontecimentos relevantes são apresentados pela perspectiva de um ilustre morador, o senhor Sílvio Antônio Cunha, pessoa ativamente presente na vida política, social, esportiva e cultural da cidade. Fatos alegres e tristes, que marcaram a existência de inúmeras pessoas e ajudaram a construir o que a cidade é hoje, são por ele relatados.

Figura 1. Sílvio Cunha em registro de seu casamento
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Sílvio Antônio Cunha, empresário procopense com formação em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina, nasceu em 9 de maio de 1952. É filho de Áurea, do lar, e de Sebastião Cunha, o primeiro barbeiro de Cornélio Procópio, proprietário do Salão Comercial, cujo nome homenageava o time de futebol homônimo. Seu pai também foi músico da primeira orquestra da cidade: Jazz Tangará, mais tarde denominada Orquestra Tangará e, posteriormente, Universal Som Pop.

Estudante do antigo Segundo Grupo Escolar, Sílvio depois fez o curso de admissão ao ginásio na escola do professor Bonfim, o Instituto Procopense de Ensino, para ingressar no Colégio Estadual Castro Alves. Posteriormente, cursou o ensino médio, na modalidade Técnico de Comércio, no Barão.

Ao falar sobre sua família, Sílvio mencionou os irmãos Sônia, Stela Maria, Sérgio André (in memoriam), Sidney Olegário e Siomara, todos envolvidos com diferentes manifestações artísticas.

Figura 2. Irmãos Cunha
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Também falou sobre sua esposa, a professora Márcia Cristina, e suas filhas, Áurea Carolina e Vitória. Recordou com muita saudade sua avó, dona Mariquinha, conhecida por seu espírito filantrópico e pela participação na direção do Abrigo Bom Pastor e do Centro Espírita Redenção.

Com uma vida política ativa, Cunha foi vereador em três legislaturas, presidente da Câmara de Vereadores e prefeito municipal de Cornélio Procópio em 1982, além de desempenhar outras funções em órgãos públicos municipais e estaduais. Atuou também como empresário de bandas musicais, regente de bandas marciais e agitador cultural. Chegou a ser líder estudantil, participando da União dos Estudantes Secundários Procopenses (UESP) com Erasmo Garanhão, Stela Maria Cunha, Omar Baddauy, Orlando João Ducci e Jaime Bonfim.

Foi membro do conjunto musical The Black Birds, de 1967 a 1973, ao lado de seu irmão Sid e de José Luís e Carlinhos Ferreira, estes últimos herdeiros da veia musical do pai, maestro Cristalino Ferreira.

Muitos foram seus colegas de bandas musicais, na época denominadas “conjuntos”. Entre eles estavam os integrantes do Mc Stones: Justino Marques, o Tino; Francisco Petrus, o Tuti; Juari; Valcir; e Alvinho Biagi. Do The Bad Boys, considerado então o melhor conjunto musical do Paraná, faziam parte Carlos Machado, o Carlão; Zezinho; Marcos e Edson Feracin; Valdemir Soares, o Polaco; e Ataíde Cuqui. Já o conjunto Os Dragões reunia Gilberto, Zeca, Nivaldo e Alvinho. Sílvio ressaltou que também foi empresário da Orquestra Universal Som Pop durante muitos anos.

Figura 3. Sílvio Cunha durante apresentação musical
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Agitador cultural e realizador de diversas ações sociais, o entrevistado contou sobre os circos e parques que visitavam a cidade, as apresentações na TV Coroados, nos programas da “Tia Lucy” e “Jovem Guarda”, dos irmãos Diniz, e nas rádios procopenses. Também recordou a promoção de shows e bailes com artistas como Olodum, Roupa Nova, Nelson Gonçalves, Chitãozinho e Xororó, Dominguinhos e Rita Lee.

Entre suas lembranças marcantes está a colaboração com a organização do carnaval de rua da cidade, que, em seu passado glorioso, contou com a presença do carnavalesco carioca Joãozinho Trinta, da Garota de Ipanema Helô Pinheiro, do diretor do Ilha Porchat Clube, Odárcio Ducci, e das mulatas do Sargentelli.

Inesquecíveis ainda são os shows do Grupo Sílvio Cunha, com personagens de animaizinhos, um deles representado pelo procopense Alexandre Carlomagno, ator de televisão e teatro. Também merece destaque o lançamento da Cartilha Pacotinho.

Sua participação foi de suma importância para o Projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, tanto pelos relatos sobre fatos marcantes da cidade quanto pelo grande acervo de fotos e jornais que disponibilizou ao Grupo de Pesquisa EDITEC.

REFERÊNCIAS

CAETANO, Márcia. Literatura de testemunho. 2006. Disponível em: http://marciacl.typepad.com/na_linha/2006/01/. Acesso em: 5 maio 2013.

CUNHA, Sílvio Antônio. Sílvio Antônio Cunha: depoimento [mar. 2013]. Entrevistadoras: Marilu Martens Oliveira, Luciana Carneiro Hernandes, Sônia Maria Rodrigues e Bárbara Feltrin. Cornélio Procópio, PR, 2013. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

PENNA, João Camillo. Este corpo, esta dor, esta fome: notas sobre o testemunho hispanoamericano. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003. p. 314–347.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003.

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução: Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

terça-feira, 28 de julho de 2026

TEU NOME É CULTURA, MARTHA DEQUÊCH!

Marilu Martens Oliveira
Inês Cardin Bressan
Luciana Carneiro Hernandes
Denise da Silva de Oliveira

Em memória de Martha Dequêch,
cuja dedicação ao ensino e à cultura permanece viva na história de Cornélio Procópio.

Entre os procopenses de gerações mais antigas, são muitos os que ainda recordam, com um doce sorriso, a querida professora de francês Martha Dequêch, um verdadeiro ícone para seus alunos e uma presença marcante na vida cultural da cidade.


Figura 1. Professoras Martha Dequêch e Sandra Poli durante a comemoração do Dia das Crianças na Aliança Francesa, em 12 de outubro de 1972
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Uma professora entre línguas e culturas

Cosmopolita, a très chère Martha Dequêch nasceu em 7 de setembro de 1926, em Mafra, Santa Catarina. Filha de Maria e Elias Dequêch, cresceu em uma família muito unida e sempre se referia com afeto aos irmãos Alexandre, Sara, Amélia, Paulo, Olinda e Froucina, conhecida como Nina. Mais tarde, os sobrinhos também encontraram na “tia Martha” uma segunda mãe: presente, dedicada e carinhosa.

Em 1936, a família viajou ao Líbano para rever parentes e amigos. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o retorno ao Brasil foi adiado. Durante sua permanência no país, a jovem Martha teve contato com as línguas francesa e árabe. Segundo as informações reunidas para este texto, ela retornou ao Brasil em maio de 1948, enquanto outros integrantes da família regressaram em 1951.

A partir de então, surgiu no cenário educacional procopense uma figura de destaque: Martha Dequêch, professora de francês do Colégio Estadual Castro Alves. Na instituição, despertou em diferentes gerações o interesse pela língua e pela cultura francesas. Tornaram-se inesquecíveis suas aulas dinâmicas, ministradas em uma sala decorada com imagens do Mont-Saint-Michel e dos castelos do Vale do Loire.

Ali, seus alunos entoavam A Marselhesa, hino nacional da França, e aprendiam canções populares que permaneceriam em suas memórias.

A Aliança Francesa de Cornélio Procópio

A professora Martha alçou voos ainda mais altos ao concretizar um de seus maiores projetos: a fundação, em 26 de setembro de 1964, da Associação Cultural Franco-Brasileira de Cornélio Procópio, mais conhecida como Aliança Francesa. A instituição tornou-se um polo irradiador de cultura na cidade e na região.

Além das aulas de francês, promovia reuniões, palestras sobre temas clássicos e contemporâneos, sessões de cinema e encontros festivos aos sábados à tarde, ocasiões em que se realizavam verdadeiras imersões na língua de Voltaire.

Figura 2. Sede da Associação Cultural Franco-Brasileira de Cornélio Procópio, conhecida como Aliança Francesa
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Figura 3. Público durante palestra realizada na Aliança Francesa, em 1971
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Em sua edição n. 559, de 11 de outubro de 1964, o jornal A Voz do Povo, conforme registrado por Villas Bôas Neto (2015, p. 163–164), apresentou os integrantes da associação recém-fundada. Figuravam como patronos a professora Martha Dequêch; o juiz de Direito Sílvio Romero Stadler de Souza; o prefeito Rosário Pitelli; os deputados Minoro Miyamoto, Paulo Pimenta Montans e Emílio Humberto Carazzai; o promotor de Justiça Paulo Ovídio dos Santos Carrilho; e Rolando Demétrio Marussi.

A primeira diretoria executiva foi composta por Martha Dequêch, presidente; Rolando Demétrio Marussi, vice-presidente; Renate Wagner de Souza, secretária-geral; Átila Silveira Brasil, segundo secretário; Lelita Martens de Oliveira, tesoureira; Hanne Massud, segundo tesoureiro; Rosita Rezende Paiva, oradora; e Reginaldo Perissé, diretor social. O Conselho Deliberativo reuniu Odilon Seganti Athayde, Reinaldo Carazzai, Michel Dib, Saulo Pinto Moreira e José Ramos da Silva.

A Aliança Francesa tornou-se reconhecida em toda a região pela qualidade do ensino do idioma. Entre os docentes que passaram pela instituição estavam Paulo Dequêch, Lelita Martens de Oliveira, Sandra Poli, Mariulza Franco Santos, Maria Suely Fernandes da Silva, Sílvia Mariana de Aquino Gandra e Gino Azzolini Neto.

Infelizmente, a instituição encerrou suas atividades em maio de 1979. Em carta aberta à população, Martha explicou que as dificuldades para sua manutenção não eram apenas locais ou nacionais, mas de alcance mais amplo. Conforme transcrição de Villas Bôas Neto (2015, p. 279), ela afirmou:

“as gerações modernas inclinam-se para o imediatismo tecnológico em detrimento do humanismo; influenciam-se pelos modernos processos publicitários que buscam homogeneizar a nossa civilização ocidental; entregam-se ao comodismo de não procurar a essência das diversas culturas para individualizar cada cultura às suas condições mesológicas e etnográficas”.

Figura 4. Ana Narente recebe certificado de curso na Aliança Francesa, acompanhada por professores e integrantes da instituição, entre eles Lelita Martens de Oliveira, Sílvia Gandra, Martha Dequêch e Paulo Dequêch
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

A atuação da Aliança Francesa ultrapassava a sala de aula. A instituição também se destacava pelas festividades que promovia e pelas atividades de que participava, como os desfiles da Semana da Pátria e o baile “Mademoiselle de Paris”, no qual era eleita a mais bela estudante de francês. Outros bailes celebravam o 14 de julho, data nacional da França, com danças e desfiles de alunas em trajes típicos.

Figura 5. Alunas da Aliança Francesa participam de desfile de 7 de Setembro em Cornélio Procópio
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Figura 6. Professora Sandra Poli e alunos durante a comemoração do Dia das Crianças na Aliança Francesa, em 12 de outubro de 1972
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Figura 7. Marthe Dequêch e alunas
Fonte: acervo reunido pelas autoras.

Um nome inscrito na memória da cidade

Martha Dequêch também foi professora de Literatura Francesa na Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Cornélio Procópio, instituição hoje integrada à Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), e na Universidade Estadual de Londrina (UEL), conquistando admiradores e amigos por onde passou.

Em janeiro de 1970, integrou, ao lado do professor Ananias Antonio Martins, a diretoria da Fundação EDUCAR, Fundação Educacional de Cornélio Procópio, representando a Secretaria de Educação e Cultura no setor de Ensino Superior, conforme Villas Bôas Neto (2015, p. 438).

A sociedade procopense reconheceu sua contribuição para a cultura em sentido amplo, e não apenas para a divulgação da cultura francesa. Em 14 de dezembro de 1975, Martha recebeu da Prefeitura Municipal o título de Cidadã Honorária de Cornélio Procópio. Em 3 de setembro de 1989, foi homenageada na 3ª Mostra Cultural Procopense – VP, promovida pelo jornal A Voz do Povo.

Martha Dequêch já se encantou, para empregar uma expressão de Guimarães Rosa, mas sua presença permanece na memória de alunos, colegas, familiares e de todos os que participaram da vida cultural procopense. Em reconhecimento à sua trajetória, seu nome foi atribuído a um conjunto habitacional de Cornélio Procópio, em um preito de gratidão e saudade.

Merci, chérie!

REFERÊNCIAS

A VOZ DO POVO. Cornélio Procópio. Edições n. 1.201, 4 out. 1975; n. 1.555, 6 jun. 1979; n. 2.535, 6 set. 1989.

VILLAS BÔAS NETO, Antonio. Memórias, simplesmente memórias: cinco décadas da imprensa procopense. Londrina: Midiograf, 2015.

FONTES DOCUMENTAIS E ICONOGRÁFICAS

Para a elaboração desta homenagem, foram utilizados materiais fornecidos pela família Dequêch, pela professora Sandra Poli, pela professora Marilu Martens Oliveira e pelo jornalista Antônio (Toninho) Villas Bôas Neto. As fotografias integram o acervo reunido pelas autoras.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

CARLITO GRACIANO COELHO, UMA VOZ QUE NÃO PODE SER ESQUECIDA: MEMÓRIAS DE UM FARMACÊUTICO PROCOPENSE

Fernando Henrique Pereira
Luiz Adriano Morganti
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

Em memória de Carlito Graciano Coelho, 
cuja voz permanece viva nas lembranças e na história de Cornélio Procópio.

A voz que queremos divulgar é a de Carlito Graciano Coelho, o farmacêutico que, à época da entrevista, tinha o maior tempo de atuação profissional na cidade e cuja participação na vida procopense foi muito além de sua área de trabalho. Alegre, articulado e bem-falante, “Seu Carlito da Farmácia”, como era conhecido, brindou os pesquisadores do Grupo de Pesquisa EDITEC com inúmeros fatos saborosos sobre a nossa querida Cornélio Procópio.

O entrevistado nasceu em 28 de novembro de 1928, na Lapa, Paraná. Ao recordar sua juventude, contou que inicialmente seguiu a carreira militar e morou no Rio de Janeiro, onde realizou estudos de Farmácia e também conheceu a outra Lapa, a da boêmia. Em busca de uma vida mais tranquila, mudou-se para Sertaneja, no Paraná, onde instalou uma farmácia. Segundo seu relato, de lá se mudou para Cornélio Procópio em outubro de 1947, após analisar o projeto da cidade e considerá-lo muito bom.

Para ele, uma cidade que possui água boa e vento pode ser considerada saudável e ótima para viver. Assim, fez sua escolha.


Figura 1. Farmacêutico Carlito Graciano Coelho
Fonte: fotografia cedida por Carlito Graciano Coelho.

A farmácia e o cuidado com a comunidade

Sua primeira farmácia, a Coração de Jesus, localizava-se na Rua Santa Catarina e, mais tarde, foi transferida para a Praça Brasil, onde permaneceu por mais de 60 anos.

Figura 2. Farmácia Coração de Jesus, conhecida como a farmácia de Seu Carlito
Fonte: fotografia cedida por Carlito Graciano Coelho.

Seu Carlito foi homenageado pelo sindicato dos farmacêuticos do Paraná por sua longa trajetória profissional e chegou a ter, no auge da carreira, doze empregados, que também participavam do atendimento à zona rural. A farmácia fornecia medicamentos a sindicatos e fazendas. Ele recordou ainda o movimento do comércio aos sábados, quando pessoas da zona rural vinham à cidade e se abasteciam na Casa da Lavoura, na Casa Concato e na Loja J. Alves Veríssimo.

Era o apogeu do café, e os fazendeiros da região ganhavam muito dinheiro com o produto. Na época da safra, era difícil deixar as propriedades para procurar um médico, mesmo em caso de enfermidade. Por isso, Seu Carlito comprou um jipe, no qual levava o necessário para prestar atendimento nas fazendas ou, quando o caso era mais grave, transportava o enfermo até o hospital da cidade.

Ele contou uma história curiosa sobre esses atendimentos. Certo dia, o senhor José Carvalho e a esposa, que estava grávida, vinham do Ribeirão do Veado, localidade do município. Ela entrou em trabalho de parto no jipe, e o menino nasceu ali mesmo. Seu Carlito foi o “parteiro” e tornou-se padrinho do garoto, em reconhecimento à ajuda prestada.

Ele também enalteceu o trabalho da parteira dona Joanela (Joana) Andreta, afirmando nunca ter visto profissional de tal gabarito e acrescentando que ela tinha muito serviço, pois havia poucos médicos na cidade. Lembrou-se, ainda, de outra parteira, que atendia na Rua São Luiz e também era bastante procurada pelas gestantes.

Bailes, música e vida social

Morador antigo, Seu Carlito tinha ótima memória e conhecia muito bem a história da cidade: suas transformações, a época dos coronéis e de seus “capangas”, os esportes então praticados e as diversões que uma pequena cidade do interior, ainda sem redes de água e esgoto, oferecia aos jovens e aos mais velhos.

Quanto aos bailes, glamorosos e familiares, era frequentador assíduo, como boa parte da sociedade procopense. Foi também presidente do Clube Operário, que, no início de seu funcionamento, recebeu o apelido de Puxa-Faca. Dançava na Associação Atlética e Recreativa de Cornélio Procópio (AARCP) e frequentava, como convidado de honra por ser cantor, as festas realizadas na zona de meretrício.

Ali conheceu grandes expoentes da música popular brasileira que se apresentavam na cidade, como Nelson Gonçalves e Orlando Dias. Ressaltou que a casa mais refinada e que atraía muitos clientes era a da senhora Rita de Assis.

Entre os grandes shows realizados nos bordéis da cidade, destacou a presença do saxofonista norte-americano Booker Pittman, frequentador assíduo dessas festas, que, segundo o entrevistado, também trabalhava como pintor de paredes e certa vez tocou com a Orquestra Tangará. Relatou, ainda, que muitos homens poderosos da região frequentavam as casas de tolerância não pelas mulheres, mas pelos espetáculos ali realizados.

Segundo ele, as “damas da noite” eram bonitas e bem-vestidas, e muitas eram sustentadas com recursos provenientes do plantio e da venda do “ouro verde”, que rendeu a Cornélio Procópio o epíteto de “Capital do Café”.

Também eram marcantes os bailes de Carnaval, dos quais Seu Carlito participava assiduamente, sempre fantasiado de pirata. Ele recordou uma tradição: os foliões do Operário iam “pular” na Associação (AARCP) e, no dia seguinte, ocorria o inverso: o Operário recebia os foliões da Associação.

Outros grandes eventos aconteciam nos cinemas, nas rádios, na AARCP, no Quinzão, nos circos e nos parques. Seu Carlito recordou ter assistido, em Cornélio Procópio, a apresentações de artistas famosos, como Vicente Celestino, Teixeirinha, Francisco Alves (Chico Alves), Nelson Gonçalves e a dupla Tonico e Tinoco.

Participação política e acontecimentos marcantes

Na política local, Seu Carlito manteve amizade com diversas figuras de destaque e exerceu o mandato de vereador por doze anos, ao longo de várias legislaturas. Afirmou ter trabalhado, como representante do povo, para que Cornélio Procópio crescesse e se transformasse no que é hoje.

Entre as figuras do passado, destacou o prefeito Pedro Mariucci, proprietário de uma serraria, com quem foi a Curitiba conversar com Emílio Carazzai, deputado que representava o município, e com o governador Moisés Lupion. Segundo o entrevistado, dessa articulação resultou a autorização para o início do serviço de esgoto e, posteriormente, para a implantação do sistema de água encanada, pelo qual era responsável o senhor Rolf Langer.

Como vereador, lutou também pelo asfaltamento das ruas e chegou a ir a Londrina para conversar a respeito com o governador Ney Braga, que se encontrava na cidade. Entre as figuras políticas de destaque, mencionou ainda os prefeitos Rosário Pitelli e Rolando Demétrio Marussi.

Sempre interessado em política, foi presidente do PTB e do PDT e recordou os comícios realizados na Praça Brasil, que atraíam políticos como Jânio Quadros e Ademar de Barros, além das crianças, que aplaudiam para ganhar balas. Contou que, durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985, muitas pessoas foram presas, algumas por até oito dias, e que visitou na cadeia amigos e conhecidos, como o senhor Domingos Erbela, o Dr. Valdir Cunha e o Dr. Danton Novaes.

Segundo Seu Carlito, cerca de cinco ou seis presos foram transferidos para Curitiba a fim de serem submetidos a interrogatórios. Em seu relato, as autoridades buscavam descobrir se estavam envolvidos com o comunismo.

Seu Carlito também recordou o Caso Creuzinha e os acontecimentos que culminaram na Chacina da Cadeia. Segundo seu relato, em 26 de junho de 1963, uma menina de cinco anos, conhecida como Creuzinha, foi vítima de violência sexual e assassinada. O entrevistado não soube precisar se o acusado era andarilho, trabalhador rural ou padeiro, pois circulavam diferentes versões sobre sua ocupação.

Contou ter atendido o acusado na cadeia local, a pedido do delegado, porque ele havia se ferido no escroto ao pular uma cerca de arame farpado durante uma tentativa de fuga. Ao sair da delegacia, Seu Carlito percebeu que muitas pessoas desejavam fazer justiça com as próprias mãos e linchar o acusado. Segundo ele, a frieza e a crueldade demonstradas pelo homem ao relatar o crime, em entrevista conduzida pelo radialista Hélio Claudino, da Rádio Cruzeiro do Sul, acirraram a revolta da população.

Conforme sua narrativa, os populares dirigiram-se à cadeia, protestando e exigindo que o acusado lhes fosse entregue. O delegado sugeriu, então, a formação de uma comissão de doze civis para verificar se o preso ainda se encontrava no local, enquanto os policiais afirmavam que ele havia sido transferido. Como não o encontraram, os manifestantes continuaram gritando e exigindo vê-lo.

Segundo Seu Carlito, o acusado já havia deixado a cadeia disfarçado de policial, como forma de protegê-lo caso o prédio fosse invadido. Em sua versão, como a multidão permanecia diante da cadeia e ameaçava entrar, os soldados fizeram advertências e, em seguida, abriram fogo. Há também outra versão, segundo a qual teriam partido da população disparos contra os policiais, que teriam revidado. Muitas pessoas ficaram feridas, e outras morreram.

Seu Carlito contou que atendeu, em sua farmácia, de 30 a 40 pessoas, entre adultos e crianças, feridas a bala ou com escoriações em decorrência do episódio. Recordou ter precisado lavar o chão do estabelecimento com baldes de água, tamanha era a quantidade de sangue que havia escorrido dos feridos. Acrescentou que o velório de Creuzinha ocorreu na casa de dona Namir, que tinha um salão de beleza, e do senhor José Ribeiro, quase em frente à cadeia.

Segundo seu relato, o deputado Nilson Baptista Ribas, representante dos procopenses na Assembleia Legislativa, morreu de infarto, abalado pela notícia. O entrevistado identificou o juiz da época como Sílvio Romero Stadler de Souza e o delegado como o capitão Djalma Mello. Afirmou que muitas pessoas teriam morrido no trágico episódio e recordou comentários de que corpos teriam sido jogados nos cemitérios de Cornélio Procópio e de Santa Mariana, cidade vizinha.

Memórias do café e das transformações da cidade

Outra lembrança de Seu Carlito referia-se aos antigos colegas farmacêuticos, também muito dedicados ao trabalho: Benedito Carneiro, Geraldo Silos, Celso Vieira, João Braga, Valdemar Guersoni e Nestor Carlos Cunha.

Para o entrevistado, havia fartura na cidade na época dos coronéis do café, quando muitos fazendeiros da região enriqueceram. Segundo seu relato, esse ciclo foi interrompido pela geada negra, que assolou a região e comprometeu o cultivo da rubiácea. Ele recordou que alguns produtores chegaram ao suicídio, enquanto outros ficaram na miséria. Em sua avaliação, a fase opulenta dos imensos cafezais foi extraordinária para Cornélio Procópio, que crescia a passos largos.

Seu Carlito lamentou o fim daquele período e a posterior estagnação da cidade, embora, na época da entrevista, percebesse uma renovação no ar com a presença das universidades e de seus estudantes.

Seu Carlito, falecido em outubro de 2013, permanece na memória de muitos procopenses por sua simpatia e pela dedicação com que atuou como farmacêutico e vereador.

REFERÊNCIAS

COELHO, Carlito Graciano. Carlito Graciano Coelho: depoimento [mar. 2013]. Entrevistadores: Luiz Adriano Morganti, Marilu Martens Oliveira e Fernando Henrique Pereira. Cornélio Procópio, PR, 2013. Entrevista realizada na Farmácia Coração de Jesus e concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

DIAS, Paulo Ribeiro. Cornélio Procópio: a história em prosa e verso. Londrina: Gráfica e Editora Modelo, 2000.