Marilu Martens Oliveira
Sônia Maria Rodrigues
Luiz Adriano Morganti
Bárbara Rocha Feltrin
Denise da Silva de Oliveira
Em 4 de janeiro de 2014, Adelzon Alves concedeu ao Grupo de Pesquisa EDITEC uma entrevista de aproximadamente cinco horas, na qual revisitou suas raízes procopenses e sua trajetória no rádio e na produção musical. Suas lembranças, reunidas a fontes bibliográficas e jornalísticas, dão forma a este registro sobre “o amigo da madrugada”.
Raízes procopenses
Antônio Damasceno Alves veio de Minas Gerais com sua família e estabeleceu-se em Congonhas, distrito de Cornélio Procópio, no norte do Paraná. Foi ali, na zona rural, por onde passa o córrego do Lajeado, que nasceu seu filho Adelzon Alves, em 5 de setembro de 1939. O menino se tornaria jornalista, radialista e produtor musical, construindo uma trajetória reconhecida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que lhe concedeu o título de Cidadão Carioca em 2000.
Figura 1. Adelzon Alves
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
Seu Damasceno, sisudo, mas de coração enorme, foi vereador e batalhou pela fundação do Lar São Vicente de Paula. Também foi um grande incentivador da Banda Musical Santa Cecília de Cornélio Procópio. Gostava de música e valorizava a cultura popular, assim como seu irmão Quincas, que participava de grupos de Folia de Reis.
Figura 2. Antônio Damasceno Alves com a esposa e os filhos
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
Figura 3. Adelzon Alves e sua irmã Adélia, eterna Miss Cornélio
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
Foi nesse ambiente musical que Adelzon cresceu. Em Congonhas, cursou o antigo primário e, posteriormente, estudou no Colégio Estadual Castro Alves, em Cornélio Procópio, do qual guardava grandes lembranças. O diretor, na época, era o professor Ângelo Mazarotto. Durante a entrevista, o radialista destacou a contribuição dos professores José Gomes e Átila Silveira Brasil, de Geografia, e Gilda Poli, de História, entre outros mestres da instituição, para sua formação política e social.
Sua vida também foi marcada pela poesia de Patativa do Assaré, Cora Coralina e Jayme Caetano Braun, especialmente pelo poema gauchesco “Cemitério de campanha”, deste último.
Às influências familiares e escolares somaram-se as de colegas de profissão. Entre eles, Adelzon destacou Waurides Brevilheri, que posteriormente se tornou proprietário da Rádio Cornélio Procópio, e Marcos Alberto, que lhe proporcionava verdadeiras aulas de percepção musical. Ao comentar músicas, letras e arranjos, falar sobre autores e intérpretes e orientar a programação, Marcos contribuiu para a formação do jovem radialista.
Foi esse mestre, colega e amigo que lhe falou sobre um músico que se apresentava em Santo Antônio da Platina, no Paraná, e que depois morou em Cornélio Procópio, na zona de meretrício: Booker Pittman.
De Cornélio Procópio ao rádio carioca
Ao recordar sua atuação como homem da comunicação e como “pé-vermelho”, Adelzon contou que iniciou sua trajetória profissional na ZYR5, Rádio Cornélio Procópio. Seu programa de auditório era um sucesso, e o trabalho na emissora foi uma verdadeira escola: naquele tempo, fazia-se de tudo em rádio.
Na entrevista de 2014, observou que as emissoras passaram a dedicar menos espaço à música, concentrando a programação em notícias, comerciais e entrevistas.
Após concluir o curso científico no Colégio Estadual Castro Alves, Adelzon mudou-se para Curitiba, em 1962, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Da capital paranaense, guardava lembranças das rádios Guairacá, Independência e Cruzeiro do Sul, além da presença marcante de Euclides Cardoso, radialista que o estimulou a valorizar a música popular brasileira.
De Curitiba para o Rio de Janeiro foi a próxima estação do trem de sua vida. Na Cidade Maravilhosa, onde se estabeleceu em 1964, Adelzon teve a oportunidade de conviver com a alma boêmia carioca, experiência que recordou com muita verve durante a entrevista.
Figura 4. Adelzon Alves, jornalista, radialista e produtor musical
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
Trabalhou na Rádio Globo de 1964 a 1990. Em 1966, passou a apresentar seu próprio programa, “Adelzon Alves, o amigo da madrugada”, batizado assim pelo amigo e chefe Mário Luiz. A atração começava à meia-noite, com a saudação:
“Saravá, para quem é de saravá. Bênção pra quem é de bênção. Boa noite pra quem é de boa noite. Bom dia pra quem é de bom dia”.
No programa, o locutor entrevistava artistas, contava histórias e divulgava compositores de samba, especialmente aqueles ligados aos morros cariocas. Entre eles estavam Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão e Djalma Sabiá, além de Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
Também abriu espaço e contribuiu para a projeção de artistas como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira, da Portela, Marisa Gata Mansa, Djavan, Alcione e Clementina de Jesus. Foi ainda produtor e companheiro de Clara Nunes, cantora nascida em 1942 e falecida em 1983, com quem começou a trabalhar em 1970.
Uma voz em defesa da música brasileira
Figura 5. Clara Nunes e Adelzon Alves
Fonte: reprodução de fotografia publicada em História de Alagoas, no artigo de Ticianeli (2022).
Sob a orientação de Adelzon, Clara diversificou seu repertório, incluindo, além de sambas, gêneros como xotes, frevos, cirandas e forrós. Essa parceria contribuiu para dar novos rumos à carreira da cantora e consolidar seu reconhecimento na música popular brasileira.
Ao analisar esse trabalho, Brügger (2008) relaciona o pensamento de Adelzon aos ideais socialistas de valorização da cultura popular brasileira, de superação das desigualdades da sociedade capitalista e de resistência à dominação estrangeira, especialmente à influência norte-americana.
Homem culto e engajado, autodidata, espiritualista e conhecedor de história, Adelzon defendeu a liberdade e a diversidade cultural. Com generosidade e criatividade, abriu espaço tanto para artistas reconhecidos quanto para talentos ainda pouco conhecidos, aproximando cantores, compositores e manifestações musicais de diferentes origens.
Essa atuação também marcou seu trabalho na Rádio MEC. A partir de 1982, passou a apresentar “Fole e viola”, programa dedicado à música regional brasileira, que recebia artistas de diferentes partes do país.
Figura 6. Adelzon Alves com Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o Gonzagão
Fonte: acervo Ney Vital, reproduzido pela Rede GN (2020)
Na mesma emissora, apresentou “MPB de Raiz”, valorizando compositores e cantores ligados às raízes culturais brasileiras e oferecendo oportunidades a quem iniciava sua trajetória na música.
Ao longo de sua atuação no rádio, contribuiu para divulgar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Alcione, Bezerra da Silva, Elaine Machado, Fundo de Quintal, Djavan, Mauro Diniz e Jovelina Pérola Negra.
Na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, deu continuidade a esse trabalho de divulgação da cultura musical, apresentando artistas como Mariuza, Osmar do Breque, Ronaldo Pudim, Seu Adriano e Lídia Gaúcha.
Reconhecimento e homenagem
Ao completar 80 anos, em 2019, Adelzon foi homenageado com um show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, com a participação de Alcione, Rildo Hora, Neguinho da Beija-Flor, Yeda Maranhão e outros artistas, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Naquele ano, também foi o primeiro homenageado do projeto Trem das Seis, realizado na plataforma do trem que leva ao Corcovado. O tributo celebrou sua trajetória e sua contribuição à cultura brasileira (Sampaio, 2019).
É com orgulho, portanto, que o Grupo de Pesquisa EDITEC registra a história de Adelzon Alves, um cidadão engajado, um profissional respeitado e um procopense de nascimento e de coração. A homenagem encontra eco nos versos de Monarco e Chico Santana:
“Eu passo momentos felizes com minha amada
Ouvindo o homem da madrugada
É ele que protege o sambista
Contra as injustiças sociais
Desejamos ao radialista
Que Deus lhe dê saúde, amor e paz”.
Figura 7. Adelzon Alves com Marilu Martens Oliveira, Sônia Maria Rodrigues, Luiz Adriano Morganti e Bárbara Rocha Feltrin durante a entrevista concedida ao EDITEC, em 4 de janeiro de 2014
Fonte: registro fotográfico do Grupo de Pesquisa EDITEC.
REFERÊNCIAS
ALVES, Adelzon. Adelzon Alves: depoimento [jan. 2014]. Entrevistadores: Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Sônia Maria Rodrigues e Bárbara Rocha Feltrin. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista realizada na residência de Marilu Martens Oliveira e concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”.
BRÜGGER, Sílvia. Canto mestiço. Revista de História, 2 set. 2008. Disponível em: https://web.archive.org/web/20130604102135/http:/www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/canto-mestico. Acesso em: 20 mar. 2021.
DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Adelzon Alves. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/personalidade/adelzon-alves/. Acesso em: 12 set. 2026.
REDE GN. Aos 80 anos radialista Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada é demitido da Rádio Nacional. 25 fev. 2020. https://www.redegn.com.br/?sessao=noticia&cod_noticia=127934. Acesso em: 12 set. 2026.
SAMPAIO, Fabiana. Ao som de Corcovado, de Tom Jobim, Adelzon Alves abre o projeto Trem das Seis. Radioagência Nacional, 5 dez. 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2019-12/ao-som-de-corcovado-de-tom-jobim-adelzon-alves-abre-o. Acesso em: 25 jan. 2022.
TICIANELI, Edberto. Meia-noite na Rádio Globo: quando o acaso abriu as portas para Djavan. História de Alagoas, 17 out. 2022. Disponível em: https://www.historiadealagoas.com.br/meia-noite-na-radio-globo-quando-o-acaso-abriu-as-portas-para-djavan. Acesso em: 12 set. 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário