sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O BASQUETE NAS MEMÓRIAS DE CORNÉLIO PROCÓPIO

Série O esporte congregando e formando cidadãos

Parte 2


Zenaide Aparecida Negrão
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

Quando depoimentos, fotografias, listas de atletas e documentos administrativos são colocados lado a lado, a história do basquete em Cornélio Procópio ganha outra dimensão. Mais do que uma sequência de partidas e resultados, ela revela uma rede de relações formada nas escolas, nos clubes, nas competições municipais e regionais e, sobretudo, na convivência entre gerações. O material preservado pelo Grupo de Pesquisa EDITEC permite acompanhar parte desse percurso e, ao mesmo tempo, perceber quantas histórias ainda podem ser recuperadas.
Nos depoimentos de João Luiz Gomes Canônico e Evaldo Knoll Filho, o Bolinha, recolhidos pelo projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, o basquete aparece como prática esportiva, espaço de sociabilidade e experiência formativa. Os relatos lembram disputas com equipes de cidades vizinhas, como Bandeirantes e Uraí, e registram conquistas procopenses em 1960 e 1965. Também recuperam nomes que marcaram diferentes momentos das quadras locais: João Luiz Gomes Canônico, Evaldo Knoll Filho (Bolinha), Nivaldo Mariucci (Dinho), João Bassanezzi (Biquinha), Nei Mariucci (Neizão), Antonio Silveira Brasil Filho (Pinguim), Sérgio Poli, Gilberto Silos (Beto), Orlando Canonico (Orlandinho), Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará) e Geraldo Rodrigues Froes.

Figura 1 — Equipe de basquete do Primeiro Colegial do Colégio Estadual Castro Alves, em 1962
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Da escola à cidade: aprender, jogar e formar outros jogadores

A presença do Colégio Estadual Castro Alves é recorrente nessa memória. Sérgio Poli e Mauro João Gonçalves são lembrados como professores e técnicos próximos dos estudantes, e as fotografias do acervo ajudam a materializar aquilo que os depoimentos narram: a escola era um dos lugares em que os jovens se aproximavam do esporte, treinavam e passavam a integrar equipes que representavam a cidade em outras competições.
João Luiz foi uma figura central nesse processo. Em seu depoimento, recorda-se a conquista do título brasileiro de lance livre, em 1960, em Niterói, no Rio de Janeiro. Sua trajetória, porém, não se resume ao desempenho como atleta. Ainda jovem, ensinava fundamentos do basquete e acolhia meninos de diferentes condições sociais nas quadras. Mais tarde, a formação em Educação Física, na Universidade Estadual de Londrina, deu continuidade a essa aproximação entre esporte e ensino.

Figura 2 — Equipe feminina vice-campeã paranaense em Assis
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

O basquete feminino também está no centro dessa história

As fotografias e os registros preservados no acervo evidenciam a presença feminina no basquete procopense. Imagens de equipes, de Jogos Colegiais, de outras competições e de desfiles mostram que as mulheres não ocuparam um lugar lateral na vida esportiva da cidade. Elas aparecem uniformizadas, em quadra, em viagens e também nas ruas, integrando a visibilidade pública conquistada pelo esporte.

Figura 3 — Atletas em desfile pelas ruas de Cornélio Procópio; à frente, jogadoras carregam bolas de basquete
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Um dos registros preservados reúne jogadoras identificadas como Rosângela Pimenta, Ione Caznok Lima, Rossana Graciano de Resende, Cristina Minotto, Regina Nóbrega, Neusa Tocunduva Tomasi, Ana Sílvia de Rosis, Elizabeth Ronchi, Milne Gilson Duarte, Vânia D’Andréa, Candinha Geraix e Sueli Pinheiro. Ao final da anotação, aparecem ainda os nomes “Jamila Haddad — Loló Reghin”, sem que o registro, isoladamente, permita estabelecer com segurança a relação entre eles. Essa pequena incerteza mostra justamente a importância de cruzar fotografias, depoimentos e outras legendas do próprio acervo antes de transformar uma hipótese de identificação em informação factual.
Um segundo registro, referente aos Jogos Colegiais, fornece uma chave importante para esse cruzamento. A legenda identifica o treinador Sérgio Poli e registra Loló como Rosangela Reghin, além de mencionar Raquel Carvalho, Suely Bonfim, Sandra Bonesso Montanes, Rosane Campos, Íris, Marina Lucchesi, Lilian Madi, Yone Paiva e Nilce Silva. A anotação destaca ainda “Sandrinha (número 6)” e acrescenta que ela “foi embora muito cedo”. Ao lado dos demais documentos, a fotografia amplia o conjunto de nomes ligados ao basquete feminino e reforça a presença das competições escolares na formação esportiva de jovens procopenses.

Figura 4 — Equipe feminina de basquete nos Jogos Colegiais, com o treinador Sérgio Poli 
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Figura 5 — Grupo de meninas ligado à formação do basquete feminino
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

A documentação municipal dos XI Jogos Abertos de Cornélio Procópio, realizados em fevereiro de 1977, acrescenta uma evidência importante. O evento reuniu diversas modalidades e utilizou diferentes espaços da cidade, como o Quinzão, o Country Club, o Centro Cultural e o campo do Comercial. Nos registros do basquete, a classificação final apontou o GRECI Iguaçu em primeiro lugar e o Sementes Canadá em segundo no masculino; no feminino, o Sementes Canadá ficou em primeiro e o Country Club em segundo. Os boletins também registram, em 13 de fevereiro, a vitória do Sementes Canadá sobre o Iguaçu por 57 a 9 no feminino e, no masculino, a vitória do Iguaçu sobre o Sementes Canadá por 64 a 61. Mais do que placares, esses documentos mostram a existência de equipes organizadas e de uma estrutura municipal de competição na qual homens e mulheres participavam do calendário esportivo local.

Figura 6 — Equipe feminina de basquete em registro histórico 
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

O basquete no calendário esportivo de 1992

Uma edição do Jornal Líder, Ano III, nº 144, publicada entre dezembro de 1992 e janeiro de 1993, registra a atuação da Autarquia Municipal de Esportes e Recreação (AMESP) ao longo de 1992. No balanço divulgado pelo jornal, a escola de basquete mantida pela autarquia aparece com 360 crianças matriculadas. O dado mostra que a modalidade integrava uma política contínua de iniciação esportiva: as atividades eram oferecidas diariamente e conviviam com escolinhas de judô, vôlei, futsal, futebol e outras práticas esportivas.
O calendário anual apresentado no mesmo relatório permite acompanhar a presença do basquete ao longo de vários meses. Em março, aparece o início das atividades das escolinhas desportivas, entre elas a de basquete. Em abril, o jornal registra amistosos de basquete masculino entre Cornélio Procópio e Assis e de basquete feminino entre Cornélio Procópio e Presidente Prudente. Em maio, constam o Campeonato Sênior de Basquete Masculino e a participação da seleção de Cornélio Procópio no Campeonato Paranaense de Basquete Feminino Adulto; em junho, aparecem a continuidade do campeonato paranaense feminino e do campeonato sênior. A sequência revela uma estrutura esportiva que articulava formação de crianças, equipes adultas, atletas veteranos e intercâmbio competitivo com outras cidades.
Esses registros de 1992 ajudam a ligar as memórias das quadras escolares e das equipes das décadas anteriores a uma etapa de maior institucionalização do esporte no município. O basquete continuava presente não apenas como lembrança de antigos campeonatos, mas como prática organizada, com escolinhas, seleções, torneios e participação em competições estaduais.

Outras gerações entram em quadra

O material reunido pelo EDITEC também registra uma geração mais nova de jogadores. Entre os nomes anotados estão Joni Silva Correia, Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará), Antonio Villas Boas Filho (Tonico), Evaldo Ferrari Chagas (Tustão), Gino Azzolini Neto (Gininho) e Pilade Ducci Sobrinho (Polaco). Em uma das fotografias, a identificação manuscrita ou digitada no acervo menciona ainda Vilela, Nelson Zamarian, Bolinha, Pinguim, Toniquinho (Antonio Villas Boas), Gino, Ducci e Eto (Edson Wagner Azzolini), mantendo algumas dúvidas de identificação. Em vez de apagar essas incertezas, preservá-las é metodologicamente importante: elas indicam os pontos em que a memória coletiva ainda pode ser completada por outros moradores e ex-atletas.

Figura 7 — Outra geração do basquete procopense
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

Uma memória que ultrapassa os resultados

A trajetória de Bolinha ajuda a perceber esse caráter formativo. Na adolescência, ele sonhava jogar futebol, mas acreditava ter poucas chances: “era gordinho, cabelo vermelho, pintadinho”. Ao observar João Luiz ensinando outros meninos, encontrou no basquete uma possibilidade. Foi o amigo quem o levou para a quadra e acreditou nele; aos 15 anos, Bolinha já havia se tornado campeão. Ao recordar os estudos, mencionou também a frase de sua mãe, dona Ida, de que o “tal do basquete atrapalhou seus estudos”. A lembrança, ao mesmo tempo afetuosa e bem-humorada, mostra a intensidade com que o esporte atravessava sua juventude.
Essa participação ganhou outras formas ao longo do tempo. Como diretor esportivo do grêmio do Colégio Estadual Castro Alves, Bolinha participou de uma solenidade cívica de posse, vestido de terno e gravata. Mais tarde, foi presidente da Associação Procopense de Basquete e participou da fundação do Ginásio de Esportes Quinze de Fevereiro, o Quinzão. A quadra, portanto, não foi apenas lugar de prática: tornou-se também espaço de organização, liderança e responsabilidade coletiva.

Figura 8 — “Turma do basquete”, em registro do acervo associado a nomes como Lilian Madi, Arlete e Eurico
Fonte: acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC

Em 2005, essa dimensão afetiva ganhou uma expressão marcante. Veteranos liderados por João Francisco Vilela organizaram um jantar em homenagem a João Luiz. Durante o encontro, antigos aprendizes foram chamados ao palco para uma fotografia ao lado do professor e os presentes o aplaudiram de pé. Na lembrança de Bolinha, foi um momento de grande emoção. Décadas depois dos primeiros treinos, permanecia o reconhecimento por alguém cuja atuação ajudara a aproximar jovens do esporte e a criar vínculos que sobreviveram às competições.
Reunidos, os depoimentos, as fotografias, os boletins dos Jogos Abertos e as páginas do Jornal Líder deslocam o olhar de uma história feita apenas de campeões para uma história feita de pessoas e instituições. Há títulos, troféus e placares, mas há também professores, estudantes, meninas iniciando nos treinos, equipes femininas, clubes, desfiles, viagens, associações, escolinhas e políticas públicas de incentivo ao esporte. Há nomes conhecidos e outros ainda à espera de identificação — todos compondo uma memória coletiva que ultrapassa a quadra.
Preservar essas imagens e relatos é também reconhecer que o basquete ajudou a formar gerações. Nas quadras escolares ou nos campeonatos municipais, entre o aprendizado de um fundamento e a organização de uma equipe, o esporte construiu pertencimentos. Ao recuperar essas trajetórias, o EDITEC não apenas guarda resultados do passado: mantém vivas experiências que continuam a compor a memória coletiva da cidade.

REFERÊNCIAS

CANÔNICO, João Luiz. João Luiz Canônico: depoimento [set. 2014]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Amanda Martins Reis e Inês Cardin Bressan. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

KNOLL FILHO, Evaldo. Evaldo Knoll Filho (Bolinha): depoimento [set. 2014]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Amanda Martins Reis e Inês Cardin Bressan. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

AUTARQUIA MUNICIPAL DE ESPORTES E TURISMO DE CORNÉLIO PROCÓPIO. XI Jogos Abertos de Cornélio Procópio: convite, programação, boletins de resultados e classificação por modalidade. Cornélio Procópio, 1977. Acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

JORNAL LÍDER. “Esporte movimentado” e “O relatório de 92”. Cornélio Procópio, ano III, n. 144, dez. 1992/jan. 1993. Acervo do Grupo de Pesquisa EDITEC.

GRUPO DE PESQUISA EDITEC. Acervo fotográfico e registros de identificação do basquete procopense. Cornélio Procópio, s.d.

GRUPO DE PESQUISA EDITEC. Registro fotográfico de equipe feminina de basquete nos Jogos Colegiais, com identificação de treinador e atletas. Cornélio Procópio, s.d.

Versão revista e ampliada da parte dedicada ao futebol no artigo “O esporte congregando e formando cidadãos”, de Zenaide Aparecida Negrão e Marilu Martens Oliveira, publicado no blog EDITEC em 4 de maio de 2016.


























O FUTEBOL NAS MEMÓRIAS DE CORNÉLIO PROCÓPIO

Série O esporte congregando e formando cidadãos

Parte 1


Zenaide Aparecida Negrão
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

As investigações do projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, do Grupo de Pesquisa EDITEC, têm revelado histórias que ajudam a compreender a vida em Cornélio Procópio. Entre elas, o esporte ocupa um lugar especial. Nas lembranças de quem viveu as décadas de 1950, 1960 e 1970, voltam os nomes dos atletas, as rivalidades entre os clubes e a alegria de uma cidade que se reconhecia nas conquistas de seus jogadores.
O futebol movimentava os meios de comunicação, o comércio e as escolas. Esporte Clube Comercial, Nove de Julho e Azul Clube despertavam paixões, e as conversas sobre os times continuavam muito depois das partidas. O Nick Bar era um dos pontos de encontro dos rapazes, que defendiam suas equipes em discussões acaloradas. O bar Clipper e a Vitamina Real também reuniam amigos para jogar conversa fora. Todos eram técnicos em potencial!

Figura 1. Estádio José de Andrade Vieira, o campo do Comercial
Fonte: Acervo Futebol do Interior Paranaense. Reprodução: Facebook.

Segundo o professor Antonio Pereira do Bonfim (2014), a cidade contou com uma equipe notável de atletas, entre eles Garoto, Vitão, Pedrinho, Dirceu Funari, Bocage, Arnoldo, Nelsinho e Silvinho. Alguns chegaram a despertar o interesse do Santos Futebol Clube, mas tinham outros projetos de vida e não seguiram para o time paulista. Essas escolhas também fazem parte da história de jogadores que permaneceram na memória dos procopenses.
Entre as conquistas mais celebradas está o Campeonato Paranaense de 1961, vencido pelo Esporte Clube Comercial, conhecido como Leão do Norte. A competição teve sua fase decisiva disputada em 1962, após uma disputa judicial envolvendo Operário Ferroviário e Coritiba. O triangular reuniu Comercial, Esportiva de Jacarezinho e Operário, representantes das diferentes regiões do estado (Mossini, 2003).
Na campanha pelo título, o Comercial venceu o Operário por 2 a 1 em Cornélio Procópio. A conquista tornou-se motivo de orgulho para a cidade. Sob o comando do técnico Raimundão, Raimundo dos Santos, os campeões desceram festivamente a avenida XV de Novembro, recebendo a homenagem dos moradores. Por um momento, a alegria da vitória reuniu até aqueles que, em outras partidas, estavam em lados opostos da torcida.

Figura 2. Faixa de campeão paranaense de 1961 do Esporte Clube Comercial
Fonte: Acervo Futebol do Interior Paranaense. Reprodução: Facebook.

A trajetória do Comercial foi construída em meio a dificuldades. O clube tinha poucos recursos e um elenco reduzido. Muitos jogadores conciliavam treinos e partidas com outras ocupações, entre elas o trabalho nos bancos. O antigo Estádio José de Andrade Vieira, conhecido como campo do Comercial, ficava no alto da avenida XV de Novembro, na esquina com a avenida Getúlio Vargas, e foi palco de momentos marcantes dessa história.
O título estadual levou o Comercial à Taça Brasil de 1962, na qual representou o Paraná e enfrentou o Metropol, de Santa Catarina (Mossini, 2003). As viagens exigiam disposição: os jogadores percorriam longas distâncias em uma jardineira, em condições muito diferentes das oferecidas às equipes profissionais de hoje. Nas lembranças dessa trajetória, a ida a Santa Catarina ficou marcada pelas estradas de terra, pela travessia de balsa, pelo cansaço e pelas refeições improvisadas durante o caminho.

Figura 3. Equipe do Comercial com as faixas do título paranaense de 1961
Em pé: o treinador Raimundão (Raimundo dos Santos), Pinduca, Vitão, Dirceu Funari, Odino, Mourão, Pedrinho, Beline, Gibi, Areo e Bocage. Agachados: Vitinho, Valdir, Baltasar, Torquato, Rubinho, Nelsinho e Silvinho.
Fonte: Acervo de Jair Siqueira; fotografia cedida por Valdir Lisboa, Santos (SP). 
Reprodução: Facebook.

As fotografias dos times, as faixas de campeão e os nomes ainda lembrados pelos torcedores guardam uma parte da vida da cidade. Ao reunir esses registros e ouvir seus protagonistas, o EDITEC contribui para que as novas gerações conheçam os atletas que mobilizaram Cornélio Procópio. Recordar suas trajetórias é também reconhecer o valor dos encontros e das amizades que o futebol tornou possíveis.
O basquete procopense, tema da segunda parte desta série, dá continuidade a essas memórias, destacando a formação de atletas e os vínculos construídos nas quadras.

REFERÊNCIAS

BONFIM, Antonio Pereira do. Antonio Pereira do Bonfim: depoimento [set. 2014]. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

MOSSINI, Thiago. Comercial, um time imbatível nos anos 60. Folha de Londrina, Londrina, 20 set. 2003. Disponível em: Comercial, um time imbatível nos anos 60. Acesso em: 25 set. 2026.

SOUZA, Luiz. Acervo Futebol do Interior Paranaense. Fotografias. Facebook, 23 dez. 2022. Disponível em: Publicação do acervo.

Versão revista e ampliada da parte dedicada ao futebol no artigo “O esporte congregando e formando cidadãos”, de Zenaide Aparecida Negrão e Marilu Martens Oliveira, publicado no blog EDITEC em 4 de maio de 2016.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

NELSON LUIZ DA ROCHA LOURES: UM APANHADOR DE LEMBRANÇAS

Zenaide Aparecida Negrão
Luiz Adriano Morganti
Marilu Martens Oliveira
Denise da Silva de Oliveira

Tempos inesquecíveis foram aqueles vividos pela família de dona Laura e do dr. Gentil da Rocha Loures, que chegaram a Cornélio Procópio em 1937, vindos de Curitiba. É o que contou o filho Nelson Luiz da Rocha Loures, nascido em 1945, um legítimo pé-vermelho, dono de prodigiosa memória.
Segundo Nelson, seu pai foi o primeiro dentista diplomado a atuar na cidade. Entre as recordações da família, destacou também a atuação dos pais junto à Legião Brasileira de Assistência (LBA), no apoio às famílias dos combatentes da Segunda Guerra Mundial.

Figura 1. Nelson Luiz da Rocha Loures durante a entrevista
Fonte: registro realizado no dia da entrevista.

Nelson estudou na Escola Rui Barbosa, no Grupo Escolar Professor Lourenço Filho e, depois, no Ginásio Estadual Castro Alves, posteriormente denominado Colégio Estadual Castro Alves. Dessas instituições, guardou excelentes recordações: colegas queridos, professores competentes, muita diversão, mas também muito estudo.
Marcaram sua memória afetiva as professoras do primário Yolanda G. Corrêa, Aparecida C. Palácios, dona Gabriela e dona Alba Barros. Mais tarde, na adolescência, vieram outras experiências e personagens inesquecíveis.
Uma das histórias envolveu o professor Zequita, José Albano de Oliveira, que lecionava Ciências e Física e ensinou a turma a fazer pólvora para um projeto de foguete. Com material comprado na Casa Serrador pelo colega João Rocha, o experimento foi realizado na aula da professora Lia Marisa de Lacerda. A experiência terminou mal: a professora começou a chorar, e a turma foi suspensa das aulas por três dias.
Nelson também recordou o professor Naufal, de Inglês, que era surdo. Segundo seu relato, os alunos respondiam às perguntas em voz baixa para provocá-lo. Lembrou ainda o professor Madi e suas aulas de fonética inglesa.
Os professores Luiz Trajano da Silva e Expedito Pegoraro foram lembrados por desvendarem os meandros da Matemática. Já o professor Ananias Antônio Martins costumava comentar sobre seu irmão, ator de filmes de bangue-bangue. Nelson contou que os estudantes recorriam a temas como Deus e Cristo nas redações, na expectativa de obter boas notas, por conhecerem o interesse do professor pela religião.
Dona Clementina, da cantina do Castro Alves, também foi lembrada com carinho. Seus quitutes, especialmente a inigualável coxinha de carne com massa de mandioca, faziam do intervalo entre as aulas um momento aguardado com grande expectativa.

Figura 2. Nelson, o sexto da esquerda para a direita, com colegas do Castro Alves na Praça Brasil
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Bem-humorado, Rocha Loures contou que morou por muitos anos no cruzamento das ruas Quintino Bocaiúva e Ceará, no chamado Bairro do Chulé. Assim eram conhecidos os arredores da Serraria dos Mariucci, por causa do cheiro forte do pó de serra.
Ao recordar a vida na cidade, mencionou o filme A caldeira do diabo (Peyton Place), que fazia sucesso na época. Para ele, a história parecia ter sido inspirada em Cornélio Procópio: uma cidade pequena, conservadora e rígida, onde todos se conheciam e havia bastante falatório.
A cidadezinha foi crescendo, e o barro, aos poucos, deu lugar ao asfalto. Nelson lembrou que, por volta de 1952, havia uma linha circular de ônibus municipal. Contou também que, posteriormente, uma forte geada provocou grandes prejuízos à economia da região. As freiras do Coleginho, o Colégio Nossa Senhora do Rosário, compraram o referido ônibus, conhecido como jardineira, para transportar os alunos.
Os colegas da escola eram também parceiros no esporte amador, um capítulo à parte em suas recordações. Nelson destacou o incentivo dos professores de Educação Física do Castro Alves: Mauro João Gonçalves, José Sérgio Poli e João Luiz Canonico.

Cornélio, centro esportivo destacado

Figura 3. Basquete na quadra do Castro Alves, na Rua Portugal: Jarbas Poli, Nelson, Dinon Villas Boas, Dantonzinho, Nenê (Edivaldo Gomes), Titinho (João de Toledo Tito) e Waltão (Walton Luiz Del Tedesco)
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Como muitos jovens de sua época, Nelson gostava bastante de esporte. No Country Club, fazia parte de um grupo de nadadores com Celso Poli, Darlan, Zé Marcolini, conhecido como Bolinha, Dimas e Sérgio Concato. Recordou que eram treinados por um professor japonês conhecido como Mac ou Maque.
Entre as nadadoras, destacou as irmãs Regina e Tereza Hatsushica, que se sobressaíam nas competições. Também mencionou o time de beisebol do Clube Kaikan.
Mas o foco da meninada estava no basquete, muito incentivado pelos diretores da Associação Atlética e Recreativa de Cornélio Procópio (AARCP), conhecida como Veterana. Nelson contou que, em alusão ao nome, o distintivo nas camisetas dos atletas trazia o desenho de uma mulher idosa.
Entre as conquistas relembradas, estavam os títulos do basquete procopense nos Jogos Abertos do Paraná, em 1960 e 1965.
Ao falar dos atletas da cidade, citou João Luiz e Orlandinho Canonico, Evaldo Knoll Filho (Bolinha), Gilberto Silos (Beto), Nivaldo Mariucci (Dinho), Edilberto Paiva, João Bassanezzi (Biquinha), Nei Mariucci (Neizão), Otávio Dias Chaves Júnior (Cambará), Danton Novaes Filho (Dantonzinho), Jarbas Poli, Mário Emílio Gonçalves, Rubens Tito (Binho) e Antonio Brasil Filho (Pinguim).

Figura 4. Jogadores de basquete: Beto, João Luiz, Edilberto, Mário Emílio e Dinho
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

Figura 5. Equipe de basquete de Cornélio Procópio, com Bassanezzi, Edilberto, Neizão, Pinguim, Sérgio Gandra, Nenê, Binho Tito e João Luiz
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

As fotografias compartilhadas por Nelson também registram a família Rocha Loures. Junto às lembranças da escola, dos amigos e do esporte, esses registros compõem uma história de vínculos e experiências que se entrelaça à memória de Cornélio Procópio.

Figura 6. Família Rocha Loures: Nelson, de camisa branca, e sua esposa, Cida Schiavinatto Rocha Loures, com os braços sobre seus ombros
Fonte: fotografia cedida por Nelson Luiz da Rocha Loures.

REFERÊNCIAS

ROCHA LOURES, Nelson Luiz da. Nelson Luiz da Rocha Loures: depoimento [nov. 2017]. Entrevistadores: Zenaide Aparecida Negrão, Luiz Adriano Morganti e Marilu Martens Oliveira. Cornélio Procópio – PR: UTFPR-CP, 2017. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”.


 



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

SALVE, SALVE ADELZON ALVES, “O AMIGO DA MADRUGADA”!

Marilu Martens Oliveira
Sônia Maria Rodrigues
Luiz Adriano Morganti
Bárbara Rocha Feltrin
Denise da Silva de Oliveira

Em 4 de janeiro de 2014, Adelzon Alves concedeu ao Grupo de Pesquisa EDITEC uma entrevista de aproximadamente cinco horas, na qual revisitou suas raízes procopenses e sua trajetória no rádio e na produção musical. Suas lembranças, reunidas a fontes bibliográficas e jornalísticas, dão forma a este registro sobre “o amigo da madrugada”.

Raízes procopenses

Antônio Damasceno Alves veio de Minas Gerais com sua família e estabeleceu-se em Congonhas, distrito de Cornélio Procópio, no norte do Paraná. Foi ali, na zona rural, por onde passa o córrego do Lajeado, que nasceu seu filho Adelzon Alves, em 5 de setembro de 1939. O menino se tornaria jornalista, radialista e produtor musical, construindo uma trajetória reconhecida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que lhe concedeu o título de Cidadão Carioca em 2000.

Figura 1. Adelzon Alves
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Seu Damasceno, sisudo, mas de coração enorme, foi vereador e batalhou pela fundação do Lar São Vicente de Paula. Também foi um grande incentivador da Banda Musical Santa Cecília de Cornélio Procópio. Gostava de música e valorizava a cultura popular, assim como seu irmão Quincas, que participava de grupos de Folia de Reis.

Figura 2. Antônio Damasceno Alves com a esposa e os filhos
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.
 
Figura 3. Adelzon Alves e sua irmã Adélia, eterna Miss Cornélio
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Foi nesse ambiente musical que Adelzon cresceu. Em Congonhas, cursou o antigo primário e, posteriormente, estudou no Colégio Estadual Castro Alves, em Cornélio Procópio, do qual guardava grandes lembranças. O diretor, na época, era o professor Ângelo Mazarotto. Durante a entrevista, o radialista destacou a contribuição dos professores José Gomes e Átila Silveira Brasil, de Geografia, e Gilda Poli, de História, entre outros mestres da instituição, para sua formação política e social.
Sua vida também foi marcada pela poesia de Patativa do Assaré, Cora Coralina e Jayme Caetano Braun, especialmente pelo poema gauchesco “Cemitério de campanha”, deste último.
Às influências familiares e escolares somaram-se as de colegas de profissão. Entre eles, Adelzon destacou Waurides Brevilheri, que posteriormente se tornou proprietário da Rádio Cornélio Procópio, e Marcos Alberto, que lhe proporcionava verdadeiras aulas de percepção musical. Ao comentar músicas, letras e arranjos, falar sobre autores e intérpretes e orientar a programação, Marcos contribuiu para a formação do jovem radialista.
Foi esse mestre, colega e amigo que lhe falou sobre um músico que se apresentava em Santo Antônio da Platina, no Paraná, e que depois morou em Cornélio Procópio, na zona de meretrício: Booker Pittman.

De Cornélio Procópio ao rádio carioca

Ao recordar sua atuação como homem da comunicação e como “pé-vermelho”, Adelzon contou que iniciou sua trajetória profissional na ZYR5, Rádio Cornélio Procópio. Seu programa de auditório era um sucesso, e o trabalho na emissora foi uma verdadeira escola: naquele tempo, fazia-se de tudo em rádio.
Na entrevista de 2014, observou que as emissoras passaram a dedicar menos espaço à música, concentrando a programação em notícias, comerciais e entrevistas.
Após concluir o curso científico no Colégio Estadual Castro Alves, Adelzon mudou-se para Curitiba, em 1962, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Da capital paranaense, guardava lembranças das rádios Guairacá, Independência e Cruzeiro do Sul, além da presença marcante de Euclides Cardoso, radialista que o estimulou a valorizar a música popular brasileira.
De Curitiba para o Rio de Janeiro foi a próxima estação do trem de sua vida. Na Cidade Maravilhosa, onde se estabeleceu em 1964, Adelzon teve a oportunidade de conviver com a alma boêmia carioca, experiência que recordou com muita verve durante a entrevista.

Figura 4. Adelzon Alves, jornalista, radialista e produtor musical
Fonte: fotografia cedida por Adelzon Alves.

Trabalhou na Rádio Globo de 1964 a 1990. Em 1966, passou a apresentar seu próprio programa, “Adelzon Alves, o amigo da madrugada”, batizado assim pelo amigo e chefe Mário Luiz. A atração começava à meia-noite, com a saudação:

“Saravá, para quem é de saravá. Bênção pra quem é de bênção. Boa noite pra quem é de boa noite. Bom dia pra quem é de bom dia”.

No programa, o locutor entrevistava artistas, contava histórias e divulgava compositores de samba, especialmente aqueles ligados aos morros cariocas. Entre eles estavam Cartola, Candeia, Nelson Cavaquinho, Zagaia, Silas de Oliveira, Dona Ivone Lara, Geraldo Babão e Djalma Sabiá, além de Paulinho da Viola e Martinho da Vila.
Também abriu espaço e contribuiu para a projeção de artistas como João Nogueira, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara, Wilson Moreira, da Portela, Marisa Gata Mansa, Djavan, Alcione e Clementina de Jesus. Foi ainda produtor e companheiro de Clara Nunes, cantora nascida em 1942 e falecida em 1983, com quem começou a trabalhar em 1970.

Uma voz em defesa da música brasileira

Figura 5. Clara Nunes e Adelzon Alves
Fonte: reprodução de fotografia publicada em História de Alagoas, no artigo de Ticianeli (2022).

Sob a orientação de Adelzon, Clara diversificou seu repertório, incluindo, além de sambas, gêneros como xotes, frevos, cirandas e forrós. Essa parceria contribuiu para dar novos rumos à carreira da cantora e consolidar seu reconhecimento na música popular brasileira.
Ao analisar esse trabalho, Brügger (2008) relaciona o pensamento de Adelzon aos ideais socialistas de valorização da cultura popular brasileira, de superação das desigualdades da sociedade capitalista e de resistência à dominação estrangeira, especialmente à influência norte-americana.
Homem culto e engajado, autodidata, espiritualista e conhecedor de história, Adelzon defendeu a liberdade e a diversidade cultural. Com generosidade e criatividade, abriu espaço tanto para artistas reconhecidos quanto para talentos ainda pouco conhecidos, aproximando cantores, compositores e manifestações musicais de diferentes origens.
Essa atuação também marcou seu trabalho na Rádio MEC. A partir de 1982, passou a apresentar “Fole e viola”, programa dedicado à música regional brasileira, que recebia artistas de diferentes partes do país.

Figura 6. Adelzon Alves com Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, o Gonzagão
Fonte: acervo Ney Vital, reproduzido pela Rede GN (2020)

Na mesma emissora, apresentou “MPB de Raiz”, valorizando compositores e cantores ligados às raízes culturais brasileiras e oferecendo oportunidades a quem iniciava sua trajetória na música.
Ao longo de sua atuação no rádio, contribuiu para divulgar nomes como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Alcione, Bezerra da Silva, Elaine Machado, Fundo de Quintal, Djavan, Mauro Diniz e Jovelina Pérola Negra.
Na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, deu continuidade a esse trabalho de divulgação da cultura musical, apresentando artistas como Mariuza, Osmar do Breque, Ronaldo Pudim, Seu Adriano e Lídia Gaúcha.

Reconhecimento e homenagem

Ao completar 80 anos, em 2019, Adelzon foi homenageado com um show no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, com a participação de Alcione, Rildo Hora, Neguinho da Beija-Flor, Yeda Maranhão e outros artistas, conforme registra o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.
Naquele ano, também foi o primeiro homenageado do projeto Trem das Seis, realizado na plataforma do trem que leva ao Corcovado. O tributo celebrou sua trajetória e sua contribuição à cultura brasileira (Sampaio, 2019).
É com orgulho, portanto, que o Grupo de Pesquisa EDITEC registra a história de Adelzon Alves, um cidadão engajado, um profissional respeitado e um procopense de nascimento e de coração. A homenagem encontra eco nos versos de Monarco e Chico Santana:

“Eu passo momentos felizes com minha amada
Ouvindo o homem da madrugada
É ele que protege o sambista
Contra as injustiças sociais
Desejamos ao radialista
Que Deus lhe dê saúde, amor e paz”.

Figura 7. Adelzon Alves com Marilu Martens Oliveira, Sônia Maria Rodrigues, Luiz Adriano Morganti e Bárbara Rocha Feltrin durante a entrevista concedida ao EDITEC, em 4 de janeiro de 2014
Fonte: registro fotográfico do Grupo de Pesquisa EDITEC.

REFERÊNCIAS

ALVES, Adelzon. Adelzon Alves: depoimento [jan. 2014]. Entrevistadores: Marilu Martens Oliveira, Luiz Adriano Morganti, Sônia Maria Rodrigues e Bárbara Rocha Feltrin. Cornélio Procópio, PR, 2014. Entrevista realizada na residência de Marilu Martens Oliveira e concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”.

BRÜGGER, Sílvia. Canto mestiço. Revista de História, 2 set. 2008. Disponível em: https://web.archive.org/web/20130604102135/http:/www.revistadehistoria.com.br/secao/retrato/canto-mestico. Acesso em: 20 mar. 2021.

DICIONÁRIO CRAVO ALBIN DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA. Adelzon Alves. Disponível em: https://dicionariompb.com.br/personalidade/adelzon-alves/. Acesso em: 12 set. 2026.

REDE GN. Aos 80 anos radialista Adelzon Alves, o Amigo da Madrugada é demitido da Rádio Nacional. 25 fev. 2020. https://www.redegn.com.br/?sessao=noticia&cod_noticia=127934. Acesso em: 12 set. 2026.

SAMPAIO, Fabiana. Ao som de Corcovado, de Tom Jobim, Adelzon Alves abre o projeto Trem das Seis. Radioagência Nacional, 5 dez. 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/cultura/audio/2019-12/ao-som-de-corcovado-de-tom-jobim-adelzon-alves-abre-o. Acesso em: 25 jan. 2022.

TICIANELI, Edberto. Meia-noite na Rádio Globo: quando o acaso abriu as portas para Djavan. História de Alagoas, 17 out. 2022. Disponível em: https://www.historiadealagoas.com.br/meia-noite-na-radio-globo-quando-o-acaso-abriu-as-portas-para-djavan. Acesso em: 12 set. 2026.







sábado, 5 de setembro de 2026

CORNÉLIO PROCÓPIO NAS LEMBRANÇAS DE SÍLVIO CUNHA: MÚSICO, POETA, POLÍTICO, EMPRESÁRIO, AGITADOR CULTURAL, QUE BRINDA À VIDA

Marilu Martens Oliveira
Luciana Carneiro Hernandes
Sônia Maria Rodrigues
Bárbara Feltrin
Denise da Silva de Oliveira

A história de Cornélio Procópio e inúmeros acontecimentos relevantes são apresentados pela perspectiva de um ilustre morador, o senhor Sílvio Antônio Cunha, pessoa ativamente presente na vida política, social, esportiva e cultural da cidade. Fatos alegres e tristes, que marcaram a existência de inúmeras pessoas e ajudaram a construir o que a cidade é hoje, são por ele relatados.

Figura 1. Sílvio Cunha em registro de seu casamento
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Sílvio Antônio Cunha, empresário procopense com formação em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina, nasceu em 9 de maio de 1952. É filho de Áurea, do lar, e de Sebastião Cunha, o primeiro barbeiro de Cornélio Procópio, proprietário do Salão Comercial, cujo nome homenageava o time de futebol homônimo. Seu pai também foi músico da primeira orquestra da cidade: Jazz Tangará, mais tarde denominada Orquestra Tangará e, posteriormente, Universal Som Pop.

Estudante do antigo Segundo Grupo Escolar, Sílvio depois fez o curso de admissão ao ginásio na escola do professor Bonfim, o Instituto Procopense de Ensino, para ingressar no Colégio Estadual Castro Alves. Posteriormente, cursou o ensino médio, na modalidade Técnico de Comércio, no Barão.

Ao falar sobre sua família, Sílvio mencionou os irmãos Sônia, Stela Maria, Sérgio André (in memoriam), Sidney Olegário e Siomara, todos envolvidos com diferentes manifestações artísticas.

Figura 2. Irmãos Cunha
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Também falou sobre sua esposa, a professora Márcia Cristina, e suas filhas, Áurea Carolina e Vitória. Recordou com muita saudade sua avó, dona Mariquinha, conhecida por seu espírito filantrópico e pela participação na direção do Abrigo Bom Pastor e do Centro Espírita Redenção.

Com uma vida política ativa, Cunha foi vereador em três legislaturas, presidente da Câmara de Vereadores e prefeito municipal de Cornélio Procópio em 1982, além de desempenhar outras funções em órgãos públicos municipais e estaduais. Atuou também como empresário de bandas musicais, regente de bandas marciais e agitador cultural. Chegou a ser líder estudantil, participando da União dos Estudantes Secundários Procopenses (UESP) com Erasmo Garanhão, Stela Maria Cunha, Omar Baddauy, Orlando João Ducci e Jaime Bonfim.

Foi membro do conjunto musical The Black Birds, de 1967 a 1973, ao lado de seu irmão Sid e de José Luís e Carlinhos Ferreira, estes últimos herdeiros da veia musical do pai, maestro Cristalino Ferreira.

Muitos foram seus colegas de bandas musicais, na época denominadas “conjuntos”. Entre eles estavam os integrantes do Mc Stones: Justino Marques, o Tino; Francisco Petrus, o Tuti; Juari; Valcir; e Alvinho Biagi. Do The Bad Boys, considerado então o melhor conjunto musical do Paraná, faziam parte Carlos Machado, o Carlão; Zezinho; Marcos e Edson Feracin; Valdemir Soares, o Polaco; e Ataíde Cuqui. Já o conjunto Os Dragões reunia Gilberto, Zeca, Nivaldo e Alvinho. Sílvio ressaltou que também foi empresário da Orquestra Universal Som Pop durante muitos anos.

Figura 3. Sílvio Cunha durante apresentação musical
Fonte: fotografia cedida por Sílvio Antônio Cunha.

Agitador cultural e realizador de diversas ações sociais, o entrevistado contou sobre os circos e parques que visitavam a cidade, as apresentações na TV Coroados, nos programas da “Tia Lucy” e “Jovem Guarda”, dos irmãos Diniz, e nas rádios procopenses. Também recordou a promoção de shows e bailes com artistas como Olodum, Roupa Nova, Nelson Gonçalves, Chitãozinho e Xororó, Dominguinhos e Rita Lee.

Entre suas lembranças marcantes está a colaboração com a organização do carnaval de rua da cidade, que, em seu passado glorioso, contou com a presença do carnavalesco carioca Joãozinho Trinta, da Garota de Ipanema Helô Pinheiro, do diretor do Ilha Porchat Clube, Odárcio Ducci, e das mulatas do Sargentelli.

Inesquecíveis ainda são os shows do Grupo Sílvio Cunha, com personagens de animaizinhos, um deles representado pelo procopense Alexandre Carlomagno, ator de televisão e teatro. Também merece destaque o lançamento da Cartilha Pacotinho.

Sua participação foi de suma importância para o Projeto Evocações do Passado: Memórias de Procopenses, tanto pelos relatos sobre fatos marcantes da cidade quanto pelo grande acervo de fotos e jornais que disponibilizou ao Grupo de Pesquisa EDITEC.

REFERÊNCIAS

CAETANO, Márcia. Literatura de testemunho. 2006. Disponível em: http://marciacl.typepad.com/na_linha/2006/01/. Acesso em: 5 maio 2013.

CUNHA, Sílvio Antônio. Sílvio Antônio Cunha: depoimento [mar. 2013]. Entrevistadoras: Marilu Martens Oliveira, Luciana Carneiro Hernandes, Sônia Maria Rodrigues e Bárbara Feltrin. Cornélio Procópio, PR, 2013. Entrevista concedida ao Projeto “Evocações do Passado: Memórias de Procopenses”, da UTFPR.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de história oral. 5. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

PENNA, João Camillo. Este corpo, esta dor, esta fome: notas sobre o testemunho hispanoamericano. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003. p. 314–347.

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Apresentação da questão. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.). História, memória, literatura. Campinas: Ed. Unicamp, 2003.

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução: Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.